terça-feira, 12 de junho de 2012

OS EXPERIMENTOS DO CECOP – CENTRO DE CONVIVÊNCIA DA PESSOA.



   Mais um texto que encontro arquivado em minhas gavetas. Sem data e sem nenhuma referência onde foi apresentado, pela linguaguem da qual me utilizo, não tenho muita dúvida que deve ter sido no início dos anos 90 em algum colóquio de Psicanálise. Neste período andava dialogando bastante com psicanalistas pertencentes a várias escolas de psicanálise. O Centro de Convivência da Pessoa - CECOP, instituição criada por mim e por mais quatro colegas, veio ocupar um espaço vago em Recife para cuidar de psicóticos. Esta instituição foi inspirada na Escola Experimental de Bonneuil, na França e na Casa das Palmeiras, Rio de Janeiro.
Na medida em que suscitou muita polêmica, ela veio a tornar-se um modelo de envergadura terapêutica produzindo os mais diversos interesses.
Estamos publicando o texto sem nenhuma correção ou acréscimo. Da minha parte, o considero nem tanto datado assim... 



Vida e Criação


   Resumo - O trabalho experimental do Centro de Convivência da Pessoa – CECOP, fundado em 1986, pelo Terapeuta Ocupacional Luiz Gonzaga P. Leal, oferece locais e momentos de criações diversas. Momentos suscetíveis de produzirem efeitos terapêuticos, sem que o valor destes seja o seu objetivo. Realizações, produções coletivas dentro de um circuito de mudança e de reconhecimento do exterior. Possibilidade de trajetórias pessoais, agente-ator-autor de sua própria história a ser construída.
  
   Palavras-chaves: Momentos de criação – Efeitos terapêuticos – Produções coletivas – Agente – Ator – Autor.

   Nossa proposta não se inscreve em um projeto puramente terapêutico, mas no de uma experiência de vida. O Centro de Convivência da Pessoa, que foi fundado em 1986, acolhe um certo tipo de paciente com grande dificuldade – isto dentro de uma perspectiva de não segregação, daí o lugar específico que esse centro ocupa, como um local que se apoia em uma busca e uma luta por uma política diferente frente à loucura.
   O Centro de Convivência da Pessoa pela sua estrutura e suas referências a noção de cenário oferece locais e momentos de criações diversas. Momentos de criação que podem produzir efeitos terapêuticos, sem fazer do valor deles o seu objeto. As estruturas, as instalações estão ali para garantir um espaço de jogo, de fantasia e de invenção dando lugar a diversas produções que, dentro de um circulo de mudança e de reconhecimento fora da instituição, assumem o valor de criação artística. Nas oficinas: pintura, teatro, escultura, realização de um desenho animado têm pretexto terapêutico, o objetivo é de expor, de apresentar, de brincar e de levar a seu termo um trabalho coletivo. As referências de trabalho são MATISSE – RODIN – GROTOWSKY – ARTAUD – e profissionais dessas disciplinas.
   Estes tempos de criação constituem um trabalho coletivo concernente ao campo social e cultural. O ato criador, se existe um, é tomado dentro de uma linguagem comum, uma escrita tanto quanto uma maneira de agir. E enquanto forma de trabalho necessário à realização do homem se inscreve no interior de uma prática social e de uma transformação de uma certa realidade, que nós identificamos como aquilo que toca à criação.
   Todavia, se o objetivo que nós nos propomos é de levar a seu termo final o trabalho empreendido, confrontando-o aos olhos de um público, isto não impede que é dentro da preocupação de criar as condições necessárias ao advento de uma palavra apropriada. Nossas tentativas é de fazê-lo nascer como sujeito face a um “fazer”.
   Para melhor compreender o que está em jogo nessas diversas criações, parece-me importante apontar alguns elementos específicos da vida do Centro, por quanto eles podem engajar um certo processo dinâmico dentro dessa instituição.
   Um desses elementos é de levar em conta a dimensão histórica. A instituição clássica anula a possibilidade de uma historicidade própria, não deixando aos indivíduos outra alternativa do que serem agentes de uma história cuja cena se situa alhures. O Centro, de início, não teve outra prioridade do que um projeto nascido de um encontro entre a psicanálise, o movimento de antipsiquiatria, a Terapia Ocupacional e o desejo daquele que foi seu fundador (Luiz Gonzaga P. Leal). A postura atual corresponde à tomada de consideração de uma história (história singular e própria de cada paciente que passam ali algum tempo). Por exemplo, o fato de representar nosso trabalho em um teatro nasceu da palavra de um paciente, que o desejara, palavra ouvida naquele momento da história do Centro, que conduziu a uma reflexão teórica sobre a noção de abertura. Assim sendo, a possibilidade de serem também os agentes de uma história futura, que retoma um momento de sua própria história é dado àqueles que ali vivem. O que permite uma leitura é a colocação de um enquadramento, não como regulamento institucional, mas como estrutura permitindo pontos de referência e questionamento. É também para garantir a permanência de um trabalho coletivo dentro do centro, permitindo as evasões individuais, até mesmo as fugas e as propostas de um trabalho externo. As oficinas, pela sua regularidade no tempo e no espaço participam desse enquadramento – enquadramento deve ser entendido como um campo de linguagem. As produções individuais nele se inscrevem como mediações, trata-se de superá-las a fim de inseri-las em uma articulação simbólica através dos ritos e dentro de uma transformação. É uma dimensão essencial, por quanto permite evitar uma situação imaginária onde tudo pode se ligar do paciente aos cuidadores, sem qualquer interferência de terceiros. Garantia contra a angústia, acha-se ali também para ser continuamente interrogado em sua permanência.
   Esta noção de enquadramento demonstra bem que o trabalho realizado dentro e fora da instituição, em si mesmo não tem forçosamente valor, mas se reveste de um sentido em relação àquele pano de fundo, onde dentro do jogo da ausência e da presença um sujeito pode emergir. Chegamos assim à noção de abertura que descortina a possibilidade de modificações dialéticas. Uma prática da abertura está elaborada: ao invés de oferecer a permanência, o enquadramento da instituição oferece desde então uma proposta de permanência de abertura para o exterior, de brechas de toda espécie. O que permanece é um local de recesso, mas o essencial da vida se desenrola em um outro lugar. Nesta alternância, é a oscilação entre um projeto e uma fuga que está em jogo. É na organização desse tipo de inscrição, dentro de uma ordem social, e do discurso que a sustenta que o paciente vai evoluir em uma história futura.
   Nós estamos atentos, para à escuta do discurso coletivo. O que pode se representar no ato “precede” o fazer. É fundamental, e deve ser reintroduzido no discurso que existe ali (da mesma forma, aliás, naquilo que precede a invenção).
   Dois exemplos de realização de oficina de expressão artística vão nos servir para apreender o processo de nossas propostas criativas através do desejo dos cuidadores. Proponho-lhes retomar o exemplo da peça “Alice no País das Maravilhas”, já representada em diferentes teatros, através de diferentes montagens. E a realização de um desenho animado atualmente projetado em sala.
  
   Tomemos exemplo do teatro:
É a partir do olhar ingênuo de Alice, que não se surpreende com coisa alguma, diante do insólito do mundo onde ela evolui, no olhar dos espectadores, que se situa nossa ação teatral. Nós nos apoiamos aqui no trajeto efetuado por um paciente para ilustrar qualquer palavra de que se trata ali e quais são os seus efeitos.
“Após sua longa queda do terreiro do coelho, Alice tentou em vão abrir as portas da grande e baixa sala onde caiu. Ela retorna tristemente ao meio da sala, perguntando a si mesma como poderia sair”. Percebendo este relato, Carlos se levanta bruscamente e grita.
- “Eu quero sair, deixem-me sair”. Ele bate com a cabeça na parece, derruba os outros participantes.
- “Eu, eu tenho medo. Deixem-me sair”, grita ele.
Adultos atores fazem então eco a seu grito
- “Alice quer sair. Ela tem medo. Está escuro”, e nós martelamos com os punhos as paredes.

Carlos parece acalmar-se por um momento, depois ele repete já com menos violência: - “Eu quero sair. Alice quer sair, tenho medo... Alice tem medo”.
Depois, muito calmo, ele repete conosco: “Alice tem medo, ela quer sair”, mas desta vez inteiramente ao nível do jogo do ator.
  
   Isto se passava no momento do trabalho propriamente dito, na oficina de teatro do Centro. Quando foi representada em público, Carlos participou, gritando conosco – “Eu quero sair”, mas do lugar de Alice, desta vez.
   Foi depois dessa sessão de trabalho que os pais nos interrogaram sobre o que havia se passado com seu filho.
- “Ele fala sempre do teatro. Após sua última sessão, ele esqueceu que tinha medo da escuridão. Pela primeira vez em sua vida desceu ao porão”.
  
   Ato que só o pai tinha o hábito de fazer para ir buscar vinho. Assim, Carlos aceitou representar Alice e representar do interior das convenções do teatro. A partir de uma encenação que nada tem a ver com o normal e o patológico, inscrevem-se efeitos que nós chamaríamos de terapêuticos. A partir dessa data, Carlos apresentava-se, sempre com as mesmas palavras: “Haverá teatro hoje? Posso ir? É certo?”.
   Desta forma, esse paciente representando do lugar de Alice com seu medo, começou a dominar esse medo, deslocando-o: o que merece ser evocado é o domínio adquirido pelo paciente, em função do jogo. Na cena do teatro, Carlos chega com o real de seu sintoma, medo que se traduz no nível do corpo e de sua destruição. O grupo acolhe este medo trazendo então a única resposta possível a esta realidade manifestada por Carlos, isto é, dando um sentido outro que no medo experimentado, isto por um discurso que vem de fora. (A trama do texto é Caroll). É esta intervenção que permite a Carlos superar e deslocar seu sintoma e desta forma aceitando dar-lhe um sentido universal, a saber aqui o sentido que uma menina Alice, sentiu e que o grupo pode acolher.
   Sob a pressão das convenções teatrais, encontramos aí tudo o que nos diz FREUD, quando afirma que é na medida onde o drama subjetivo está integrado em um mito com um valor humano entendido, que o sujeito se realiza. A partir daí, Carlos descobrirá que seu jogo tem efeitos sobre os espectadores, e estes efeitos, por sua vez, tornar-se-ão simbólicos.

- “Eu não quero mais representar no centro, nos diz ele”. Sim, por que?

“Isto não impressiona as pessoas, quero que tenha espectadores” e isto num tom inteiramente diferente daquele que lhe é habitual e onde falava de si na 3ª pessoa.

   Foi após uma representação de pleno êxito, que seria observado que pela primeira vez em sua vida, Carlos poderá reconhecer nele a dimensão do jogo em seus atos. Com efeito, um dia, quando ele então tentava jogar-se debaixo de um carro, parou bruscamente, e olhando as pessoas que se preparavam para intervir, declarou: “Mas eu estou brincando de fazer medo, de me fazer medo”. O que ele pôde adquirir no palco, o saber investir nesta cena como imaginária, após tê-la vivido como real, será em seguida transportado para sua vida diária. 
   E essa aquisição parece ser nada menos que uma estruturação da imaginação necessária á instauração dessa série de equivalência em um sistema onde os objetos se substituem uns aos outros. Aí está, quer nos parecer, toda a força e fragilidade de um tal trabalho, força por quanto é pelo fato que a cena pode ser investida como imaginária, e não como real, que um efeito de simbolização é possível, fragilidade pois o espectador percebe como é preciso pouca coisa para que todo este jogo oscile do lado real. Aconteceu, quando de representações, que esse deslizamento para o real ficasse esboçado: “Eu quero sair”, grita Carlos. No momento do processo, esquecendo que se representa Alice.

“Silêncio, diz o rei, ou eu faço evacuar a sala do tribunal”.
“Ah, sim”, responde ele, retomando então um lugar no jogo.

   Nos vestígios dos passos de Alice, sendo que não é indiferente que eles se inscrevam inteiramente na cena do sonho, o que abandona Carlos com seu medo do rei? “O teatro, escreve ARTAUD, deve ser considerado como o substituto não da realidade cotidiana... mas, de outra realidade perigosa e típica onde os príncipes, como os delfins, quando mostram a cabeça, apressam-se em voltar para a obscuridade”.
   Desses olhares cruzados, a partir dos quais cada um tem um lugar, que pode trocar com outro, isto é ao nível da troca entre ator, espectador, que se representa a realidade concreta do acontecimento teatral, isto em nome das convenções do teatro.
   A obra teatral não é o texto, o livro. O teatro tornaria de preferência sensível, o que na página impressa só pode se traduzir por brancos ou ausência de pontuação, reticências... etc. Ao término desse trabalho coletivo, parece realmente que a criação é secundária a um drama secreto, a um aniquilamento primeiro, onde o universo é derrubado. Nós trabalhamos com os sintomas, as crises, os atos criativos, mas para nós, o essencial continua sendo a escrita do sujeito e de seu desejo.
   O outro exemplo é o da realização de um desenho animado. Ele acentua talvez a melhor noção de intencionalidade, na qual é preso o paciente para agir e criar.
   Quando por ocasião de uma conversação, a ideia de fazer um filme foi levantada e retomada por um paciente: E por que não um desenho animado? A partir daí, uma longa aventura rica em criação de toda espécie, nasceu. Nós nos dirigimos a profissionais, para nos iluminar com a sua experiência. Entre eles, Sávio Furtado, profissional de cinema com grande experiência em curtas-metragens.  A ideia de uma verdadeira realização mobilizou muitos pacientes, e nove dentre eles tornaram-se autores. Um período durante o qual a introdução da câmera, do visor, do: “Silêncio: estamos gravando”, impôs um verdadeiro convite à criação. Criações individuais de desenhos, pintura, colagem a partir de cenários inventados pelos próprios pacientes. No final, apareceu um filme de ficção em cinema de animação.
   Não me estenderei mais, por enquanto ainda teria muito a dizer sobre o desenrolar dessa oficina de criação. Mas, o que é interessante sublinhar, é a maneira como se propõe o paciente a sair de sua PASSIVIDADE; Passividade feita de sintomas, até mesmo de inibições, na qual ele está preso, fazendo entrar sua palavra, suas fantasias, seu jogo, seus fantasmas através de desenhos e pinturas, em uma criação que transforma a realidade deles. Eles assumem um outro sentido, um outro destino por ordem dessa escrita animada e filmada. Inscrição dentro de outro campo, de outro contexto. Não se trata aí de solucionar os conflitos. A tentativa é ir além de sua própria história dentro de uma proposta ativa onde os efeitos “hic et nun”, escapam a eles e a nós, em proveito de uma realização coletiva.
Tornando-se atores, não se poderia dizer que se tornam efeito de seu próprio ato?
Com o ato criativo, o autor mostra à distância um prazer que não investe mais seu corpo.
Então, para concluir, criar alguma vez curou?
   E a outra pergunta é: se a arte é terapêutica, a terapia ocupacional através da arte não esvaziaria a arte de seu conteúdo e de suas potencialidades? Por enquanto, a julgar de nossa prática teatral, o levantamento do recalque que acompanha o efeito terapêutico não sucede absolutamente à produção da obra.
Terminemos com esta frase de PABLO PICASSO:
“O que conta é o próprio drama do ato, o momento em que o universo escapa de si mesmo para reencontrar sua própria destruição.”

Sumário


Vida e criação no “Centro de Convivência da Pessoa”.
   “O Centro de Convivência da Pessoa”, fundado em 1986 por Luiz Gonzaga P. Leal fornece suporte para a estruturação de diferentes locais e tempos devotados ao desenvolvimento da ação criativa. Estes locais e tempos otimistas produzem efeitos terapêuticos, mas sem ser especificamente planejados para isso. Em lugar de pretextos terapêuticos intra-mural, trabalho coletivo e projetos de trocas comuns e reconhecidos pelo mundo externo são desejados. Isto inclui encorajamento individual de cada um em respeitar sua história pessoal e determinar seu próprio caminho de auto-realização.

Palavras-chaves:

Trabalho coletivo - Projetos comuns – Mundo exterior – Terapia Ocupacional - Auto-realização – Criatividade – Potência Criativa.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O ato de adoecer: compreensão para manejo daquele que sofre.

UMA BREVE NOTA: Há uma semana encontrei esta minha fala datilografada e cheia de rabiscos. Trata-se de uma conferência realizada no ENORFITO - Encontro Nordestino de Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais. Realizado em Salvador - BA, Dezembro de 1990.
Fiquei na dúvida se publicaria da forma como a encontrei ou se faria uma revisão adequada ao tempo de agora. Decidi que depois de 23 anos, mesmo datada, faz sentido publicá-la. Entendi que foi através dessa escrevinhação, que começei a ensaiar os meus primeiros passos para entender os processos de Terapia Ocupacional numa relação imediata com os processos subjetivos. Naquele época buscava através da psicanálise elementos que pudessem suavizar os conflitos por mim vivenciados no meu fazer clinico. Aliado também da antropologia, fui remetido a Lacan que através da leitura dos seus textos, quebrou-me inúmeros galhos. Leituras densas, instigadoras, inteligentes e absolutamente fascinantes. Diante das dificuldades de entendimento de todos aqueles conceitos, resolvi encarrar o que lia, como se estivesse lendo um lindo e misterioso romance. Terminei por me dar bem, já que fui encontrando grandes veredas e pistas.   

*Luiz Gonzaga P. Leal.



É sempre bom lembrar que um copo vázio está cheio de ar.
(Chico Buarque de Holanda)



   Agradecer o convite por estar aqui, é falar também de minha emoção em participar deste evento, bem como do meu desejo de comunicar minhas ideias. Desta forma, então, falar do quê, senão também sobre minhas histórias...
   Quando consultado para dar uma conferência neste encontro, de início fui tomado por uma dúvida: se falaria em torno de um tema que congregasse interesse apenas dos Terapeutas Ocupacionais, ou se acerca de algo que a um só tempo pudesse também interessar aos Fisioterapeutas. Decidindo pela 2ª opção ocorreu-me escolher o tema.
   O fio condutor que me levou a escolha, partiu da constatação de que nós Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais, não apenas tratamos a doença, mas o doente na qual esta se instala. O doente por sua vez, a sua pessoa, empresta significados ao ato de adoecer, que por ser vivenciado como terrificante e ameaçador declara sofrimento e dores.
   É da sua compreensão que resulta um adequado manejo daquele que se encontra atrelado as malhas da doença. Pois estar doente significa, estar preso a uma determinada ocorrência da qual não se pode livrar (o sintoma) e que causa sofrimento, cujo alívio é buscado através do Terapeuta, de suas possibilidades, do seu saber. A ameaça de aniquilamento, de destruição e de morte, são vivenciados de forma intensa e catastrófica, uma vez que estar doente significa facilmente esta regredido e como tal privado parcialmente de um raciocínio lógico e adulto. Essa angústia de aniquilamento provoca que se procure na figura do Terapeuta um poder maior onipotente, que se possa imediatamente promover um controle sobre o que se sente como o incontrolável.
   Nós, Terapeutas Ocupacionais e Fisioterapeutas não fomos preparados exatamente para cuidar de pessoas, e sim de doentes. Fomos por demais influenciados pelo discurso médico, cuja marca, prima pela exclusão da subjetividade do sujeito, ou seja, pela exclusão da subjetividade daquele que adoece.
   Esta subjetividade inerente a cada um, a cada pessoa, empresta um significado, uma tonalidade ao ato de adoecer, pois na verdade, não somos capazes de reconhecer a realidade, senão da forma como ela está organizada dentro de nós.


Discurso Médico – Marcas e caracterizações


   O discurso médico prima por excluir a subjetividade tanto daquele que enuncia como daquele que o escuta. Daí a pretensa objetividade do cientista que, na verdade, está calcada na abolição da subjetividade do autor.
   Evidenciando que é a exclusão das posições subjetivas do médico e do paciente o que funda a relação médico-paciente, é que Lacan dirá que não existe relação médico-paciente.
   O médico só intervém e só fala enquanto lugar tenente da instituição médica, enquanto funcionário, instrumento do discurso médico. O médico só existe em sua referência constante do saber médico, do corpo médico, dá instituição médica. Ele se anula enquanto sujeito perante a exigência de objetividade científica, ou seja, o médico só se autoriza por não ser ele próprio, por ser próprio o menos possível.
   O apagamento da subjetividade do médico pode ser evidenciado ao constatarmos que a lógica institucional – transcende a particularidade do médico que examina, decorrendo daí o fato de o estilo das observações do prontuário de um doente ser o mesmo, independentemente do sujeito que entrevistou.
   O médico diante do outro que sofre, que agoniza, sofre também, não por partilhar do sofrimento daquele, mas por nada poder fazer para superar sua própria impotência perante a doença fatal. Impotência que seria desfeita no momento em que a potencia de seu saber pudesse enfrentar, sem temer uma derrota, o Mestre absoluto, ou seja, a morte. Arma terapêutica, arsenal terapêutico são expressões vigentes no vocabulário médico – para enfrentar o inimigo, o que lhe possibilitará dar provas de sua mestria.
   Dessubjetivação, ainda, que se revela pela rareza do encontro entre médico e doente, ficando este submetido ao tratamento de uma equipe médica – o trabalho em equipe é um dos estandartes que o discurso médico levanta atualmente, ao mesmo tempo que, contraditóriamente, e sem aperceber-se disso, alteia a flâmula da relação médico-paciente – que se reveza junto ao doente, valoriza apenas os dados escritos no prontuário por outros médicos para diagnosticar e prescrever. O que se demonstra no inegável hábito de o médico chegar junto ao leito do doente já ciente de todas as informações da equipe escritas no prontuário.
   Tais informações, tal saber, constituem o elemento que mediatiza, a partir daí, o que se passará no encontro. Encontro que, portanto, não existe, sendo apenas o ardil para o encontro do médico com seu próprio discurso. Sob a máscara de um diálogo, é um monólogo que se instaura. Onde se evidencia a função silenciadora do discurso médico, que ao se valer apénas dos elementos de seu próprio discurso abole tudo o que nele não possa se inscrever.
   Por outro lado, o doente, não é a ele que o médico se dirige, mas ao homem presumidamente normal que ele era e que deve voltar a ser. Homem normal, ou seja, que raciocina com justeza o que significa que ele deve se submeter à razão médica. Qualquer insurgência contra a razão médica é sempre tomada como sinal de desrazão.
   A ordem médica, é sobretudo uma ordem jurídica. O direito, “diz Kelsen”, não fala do ser, mas apenas do “dever-ser” e os meios do direito, as sansões, destinam-se a fazer com que cada um aceda ao dever-ser. O homem tal como é definido pela medicina, também é da ordem do dever-ser, é o homem em boa saúde, aquele ao qual cada um acenderá se seguir as prescrições da razão médica.
   Mas o ser, o mormente doente, não interessa a medicina, daí o médico não se dirigir ao doente, mas ao futuro homem são.
   E é nesse sentido que também se pode evidenciar que não existe relação médico-paciente. Só existe a relação instituição médica-doença.
   Médico e doente destituídos de sua subjetividade prevalecem à instituição médica, lugar da totalidade do discurso médico, e da qual o médico é apenas o anônimo representante -, e a doença – objeto constituído pelo próprio discurso médico, sendo o homem únicamente o anônimo terreno no qual a doença se instala.
   A exigência do uniforme tanto para o médico quanto para o doente hospitalizado – do mesmo modo que no exercito, no presídio, e no convento – parece adquirir sua significação não apenas da necessidade de identificação imediata do sujeito ou das regras de higiene e da assepsia, mas também da uniformização que o duplo anonimato em questão requer.
   É através de uma receita que o médico prescreve ao doente, ou seja, através de uma ordem. A prescrição médica é um enunciado dogmático: coma isso, não beba aquilo, não fume, repouse, faça exercícios... Até a sexualidade  sofre este efeito de ordenação que está implícito na prescrição: manter relações sexuais periodicamente ajuda a manter a boa forma!... O que tem por efeito transforma a vida amorosa do sujeito num dever conjugal, o que é exatamente o modo pelo qual a ideologia dominante encara a sexualidade. Por onde se depreende o conchavo do discurso médico com o discurso dominante, um utilizando o outro para impor seus ditames, suas leis e seus ideais. Daí, que, converter, convencer, vencer, passam a ser palavras de ordem deste discurso, ou seja, o discurso do Mestre. O inquérito médico, configurado pela anamnese, abole a “escuta” – escuta “seletiva”, não valorizando a priori nenhum dos elementos do discurso do sujeito, estando o cuidador submetido aos pré-conceitos para ouvir.
   O que está em jogo é a passagem de um discurso a outro, do discurso do mestre para o discurso do Terapeuta, passagem da posição dogmática para a posição compreensiva. Passagem, enfim, da postura do sujeito que sabe, próprio do médico (domínio do Mestre) a do suposto saber, lugar do Terapeuta.
   Tomemos aqui o exemplo da histeria. A histeria, com seus sintomas denominados pelo discurso médico de migratórios, ludibria o saber médico, colocando-o num impasse. E do médico, a histérica só ouvirá como resposta: “Você não tem nada!”.
   Mas, curiosamente, entre os médicos, comenta-se que ela tem alguma coisa, sim, ela sofre de “piti”... O que para nós, só faz evidenciar a desqualificação que é promovida pelo diagnóstico de “piti", diagnóstico impossível de ser revelado sem desencadear no outro seu intuito mais secreto, a agressão moral. Diagnóstico que tem como função a de desqualificar o sujeito, desqualificando-o enquanto doente.
   A histérica é acusada de simular os sintomas, termos que remete diretamente ao contexto teatral e seu jogo. O papel que deveria representar na cena médica, este papel ela não o desempenha bem. E recusando-se a coadjuvar no papel que lhe apresentam, será, então, seu drama que não será ouvido.
   Esta recusa está na dependência de os sintomas da histérica não remeterem ao discurso médico, mas ao próprio sujeito.
   Na antiguidade, eram as histéricas tidas como bruxas, feiticeiras, possuídas, por isso sujeitas a fogueiras dos inquisidores.
   No presente diz-se: “com esta paciente só matando”, pois tanto num registro, quanto no outro, o que se incinera, se esfuma, se matam é o desejo do sujeito – a sua subjetividade.
   Através das diversas etapas pela quais se efetua o “ato médico”, ou seja, as etapas do diagnóstico, do prognóstico, e da terapêutica, o que se configura é um discurso totalitário que exclui a diferença, único modo pelo qual a subjetividade poderia se manifestar.
   Por intermédio da utilização de um vocabulário ao qual o doente não tem acesso, o discurso médico opera reduzindo o sentido dos diferentes ditos do sujeito, àquilo que é passível de ser inscrito no discurso médico.
   A pluralidade de sentido, característica da língua, é abolida para dar lugar à univocidade de sentido, ideal do código. Desse modo, o discurso médico apropria-se do discurso do sujeito, transformando os significantes de sua fala em signos, em sinais médicos.
   Importa relembrar aqui a definição que Lacan dá do signo, como sendo aquilo que representa alguma coisa para alguém (que saiba lê-lo), diferentemente do significante que representa um sujeito para outro significante.
   Operação de que se vale o discurso médico e pela qual diversos significantes, tais como um abafamento no peito, uma falta de ar, uma angustia por dentro, uma sensação de sufoco etc., serão todos reduzidos, univocamente, ao sinal clínico da dispneia. E isto para que possam ser inscritos no discurso médico. Do mesmo modo, um peso na cabeça, uma ardência na testa, um latejamento na mente, um pensamento que não para de martilhar, serão reduzidos ao sinal clínico da cefaleia. 
   A fala do sujeito é ouvida apenas para ser descartada imediatamente. Onde se depreende a função sentenciadora do discurso médico e seu posicionamento exatamente inverso ao discurso daquele que se predispõe cuidar.
   O discurso médico, escamoteia o discurso do sujeito não restituindo-lhe o seu lugar, ou seja, constitui uma fala em que o sujeito da enunciação não se manifesta, em que a verdade anunciada por ele deve ser independente daquele que a enuncia.
   Desta forma, para finalizar, é impossível conciliar psique e soma no campo do discurso médico. O que a antiga máxima parece, entre outras coisas, sugerir: menssana in corpore sano.
 


sexta-feira, 27 de abril de 2012

O que é MESMO, e o que não é MESMO Terapia Ocupacional?


Maio de 2002


Nesses 20 últimos anos, a Terapia Ocupacional cresceu, se difundiu e se pluralizou em escala nacional e internacional. Esta pluralização mostra a força e a saúde do conhecimento Terapêutico Ocupacional, mas vem ao mesmo tempo, colocando em risco sua própria existência, ao gerar uma Babel de linguagens Terapêuticas Ocupacionais. Vivemos atualmente entre diversos autores que criaram paradigmas Terapêuticos Ocupacionais, entre as escolas que criaram ou inspiraram nos seus países de origem em comunidades distantes, entre instituições de formação de estrutura e afiliação as mais diversas, entre modos de práticas a Terapia Ocupacional que ás vezes se opõem radicalmente, e entre Terapias Ocupacionais pessoais idiossíncráticas que são gerados pelos Terapeutas Ocupacionais que pensam que todo ato Terapêutico é um ato de criação e que não acreditam numa afiliação direta a teorias já prontas.
É nesse contexto que se tornou mais visível um fenômeno que já é conhecido de alguns, mas que é pouquíssimo estudado: o “Isso não é Terapia Ocupacional”. Além de ser uma Expressão, um clichê, uma forma sociolinguística estável. O “Isso não é Terapia Ocupacional” é um paradigma de pensamento e uma atitude mental que orienta e protege o Terapeuta e os envolvidos com Terapia Ocupacional na dolorosa desorientação, que para muitos, se tornou o campo Terapêutico Ocupacional.
“Isso não é Terapia Ocupacional” surge frequentemente quando alguém ou um grupo Terapêutico Ocupacional se confronta ou se encontra com a diferença, isto é, com um modo de pensar, praticar ou institucionalizar a Terapia Ocupacional que é diferente do que todo aquele individuo ou grupo adota.
Em situação de confronto intelectual e estress político e ideológico, a maioria de nós recorre o “Isso não é Terapia Ocupacional”. E a lógica aniquiladora que esta forma de pensamento encerra emerge em vários outros pontos do campo Terapêutico Ocupacional, como por exemplo, a técnica tal como é entendida dentro dos fóruns produtores e difusores do conhecimento a exemplo das universidades.
Mas o fato é que “Isso não é Terapia Ocupacional” é um argumento de poder – aliás, muito próximo do “VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?” – que é adicionado, com frequência, quando terapeutas são colocados frente a frente com algo que não entendem, que é diferente do que fazem, que desafia aquilo que constituem o esteio último de sua identidade e que, portanto os ameaça.
O problema é, então que a pluralidade Terapêutica Ocupacional, é ameaçadora para aqueles que nela vivem, e ao invés de ter gerado uma “democracia terapêutica ocupacional”, corre o risco de provocar o esfacelamento progressivo do campo terapêutico ocupacional numa Babel em que cada um vai acabar dizendo “Isso não é Terapia Ocupacional” numa língua própria que só ele consegue entender.
A questão é certamente muito complexa, mas é possível tentar impedir que cheguemos a tal situação. Um dos modos para tentar fazer isso é substituir o “Isso não é Terapia Ocupacional” pelo estudo mais amplo do campo Terapêutico Ocupacional, pelo conhecimento de sua evolução e das condições de sua progressiva diferenciação.
Este estudo, no entanto, tem que fazer parte da formação sistemática dos Terapeutas Ocupacionais, que teria, assim, que ser ao mesmo tempo teoricamente mais exigente (isto é, reforçar o conhecimento das várias teorias terapêuticas ocupacionais) e estar baseada no desenvolvimento do movimento da profissão querem do passado, quer na contemporaneidade. Não se pode esperar milagres do conhecimento, ainda mais se ele não vier associado a reformas na estrutura ainda mais se ele não vier também associados a reformas na estrutura política das instituições que as tornem mais democráticas e ao mesmo tempo mais capazes de estimular e acolher o espírito cientifico a seriedade da pesquisa em Terapia Ocupacional.
O conhecimento por si só não opera qualquer mágica, mas certamente muda as representações que os Terapeutas Ocupacionais e os que se interessam por Terapia Ocupacional tem do que é Terapia Ocupacional, dificultando assim, o autoritarismo simplificador que oculta, no fundo, a ignorância de quem fala que “Isso não é Terapia Ocupacional”.
Um estudo sectário e não religioso das obras de alguns autores mostra facilmente que elas são uma grande síntese instável, e que é preciso antes de tudo aprender a ler estes autores. A experiência do contato repetido com seus textos mostra várias contradições inevitáveis, mostra que, por exemplo, ao contrário de suas definições oficiais do que Terapia Ocupacional, esta aparece em textos como indissociavelmente ciência, desejo, mitologia, política, estética...
O “Isso não é Terapia Ocupacional” é então uma identificação com a parte autoritária do poder, que nos protege contra a angústia de não podermos criar paradigmas, de não termos a liberdade da criação.
Após todos estes anos em que a Terapia Ocupacional vem constituindo sua história podemos perceber os efeitos de um luto impossível, num campo de conhecimento regido por forças que ignoramos e que nos comandam.
Vamos trabalhar para nos próximos tantos anos, evitar que a Terapia Ocupacional seja derrotada pelos próprios Terapeutas Ocupacionais.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Estatuto da Clínica na Terapia Ocupacional Frente ao desafio da Transdisciplinaridade.

Trata-se de uma série de encontros que aconteceu em Fortaleza, a convite de um grupo de colegas Terapeutas Ocupacionais. Naquela época, as conversas em torno da Transdisciplinaridade começaram a emergir e ganhar forma, através das mais variadas linguagens. E foi movido por esse interesse que esse grupo me convidou para formatar umas conversas e interlocuções em torno da Transdisciplinaridade e a Terapia Ocupacional.
Foi pra mim um grande desafio topar essa parada, mas ao mesmo tempo me abasteci de ira, potência e tesão. Até mesmo porque iria trabalhar com um grupo que sempre me considerou, tinha apresso por mim, disposição para pensarmos juntos. Além do mais era no nordeste do Brasil, em Fortaleza. Tinha a clareza que os nossos encontros se converteriam mesmo em ENCONTROS, e não em EMBATES. Propus um conteúdo programático, sugestões de leituras de textos e livros. E assim partimos para realizarmos as conversações, que hoje atribuo como deliciosas, apaziguadoras, divertidas, confusas, complicadas, difíceis, encabuladas, tímidas... mas absurdamente amorosas. Terminou sendo tudo muito bonito, singelo e adequado. O ano? Não me recordo, imagino que foi em meados da década de 90.
Vejam o que aconteceu nesses encontros todos...

O Estatuto da Clínica na Terapia Ocupacional frente ao desafio da Transdisciplinaridade.

Um Novo Estatuto...

O surgimento de novas formas de percepção e cognição que a linearidade do logos. A repetição de percepções sensoriais incorporando ao vivido, emoções plurais.

Acompanhe seus efeitos:

Basta      escutar      a     Poesia...


A poesia existe nos fatos.
Os casebres de Açafrão e de Ocre nos verdes da favela, sob azul cabralino, são fatos estéticos.

(Oswald de Andrade, manifesto Pau Brasil, 1924)


Para que serve a história?

Nos últimos 15 anos, nas grandes cidades brasileiras seguindo caminhos e segundo ritmos diversos, a Terapia Ocupacional se difundiu e gerou uma cultura ocupacional, através de um processo que se tornou conhecido como um Boom da Terapia Ocupacional.

No entanto, dizer que houve um Boom terapêutico ocupacional não é uma boa resposta para o conjunto complexo de questões envolvidas neste processo.
A exceção de alguns esforços isolados, a noção de Boom é sempre utilizada de modo descritivo, enumerando os diversos domínios da vida social penetrados pela Terapia Ocupacional, ao mesmo tempo em que expressa a perplexidade e a impotência do autor.

Para começar a entender a Terapia Ocupacional no Brasil o imprescindível no momento, não é encontrar as respostas precisas mas antes conseguir formular as perguntas adequadas - e isto de modo algum, pode ser feito só e exclusivamente a partir da Terapia Ocupacional. É assim que a relação entre a Terapia Ocupacional e outros saberes pode se tornar relevante.

Para fazer face as constantes metamorfoses do viver contemporâneo, temos que recorrer ao limite extremo da nossa própria formação.

Esse limite, ao ser tomado como referencial vai possibilitar refazer tudo novamente. Esta ideia se encarna numa prática que acolhe complexidade inerentes ao momento singular do sujeito. A prática orienta a tomada de decisões, em qualquer campo, para catalisar o surgimento de novos mundos, de novo possíveis.

Há pelo menos alguma ideia nova de homem surgindo no horizonte?

A Terapia Ocupacional preserva sua possibilidade de manter-se viva, fértil à sua identidade investigativa à medida que cultiva sua liberdade para questionar-se continuamente abrindo espaço para movimentos de expansão e renovação criativa em si mesma e no mundo que a rodeia.

Ao voltar-se para as questões TRANSDISCIPLINARES insere-se na intersecção dos vínculos do individuo com suas realidades internas e externas, humanizando-as e por sua vez constituindo e sendo constituída por sua interface com a sociedade em seus múltiplos vértices.

Passa uma borboleta por diante de
mim
E pela primeira vez no universo eu
reparo
Que as borboletas não tem cor nem
movimento
Assim como as flores não tem perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move...

(Fernando Pessoa)



Conversas Terapêuticas Ocupacionais

*O sujeito como fábula
*A teoria alimenta o caso mas não faz o caso
*Isso não é Terapia Ocupacional

Experiência Clínica e Estética

*Para além dos objetos
*Os objetos e seus espaços

O desenho, uma lógica da origem

*Squiggle "Garabato" Grupal
*Vínculo Grupo - Instituição
*Setting, Holding, Continente, Cenografia
*Cenas ocupacionais

Um espaço para o acontecer do tempo

*Um potencial espaço
*O vazio e o pleno
*Fragmento
*Labirinto
*Rizoma

De quem é a resistência, afinal?

Identifique-se... pergunte e pergunte-se...

Intercessor: um conceito ferramenta cheio de força e crítica.








terça-feira, 24 de abril de 2012

SOMOS TODOS ANTROPÓFAGOS?


Em nossa época, repleta de matanças e injustiças cometidas em escala universal, muitos artistas têm revivido, por intermédio da parábola antropofágica, as agudas reflexões com que Montaigne e Voltaire tentaram desmentir a presunçosa superioridade do europeu sobre o selvagem de outros continentes.
“Vou comer você a beijos”. Essa afirmação, cochichada aos ouvidos do parceiro amoroso e que parece destinada a inaugurar os transportes de um doce frenesi, é também, para os psicanalistas, uma fonte inesgotável de especulações sobre os paradoxos do inconsciente. E somada a outras analogias usuais do vocabulário galante – “devorador”, “voraz”, “apetitosa”, “gostosa” – insinua uma inquietante afinidade entre o erotismo e uma gastronomia pouco convencional. Assim, pelo menos, entendeu Levi-Strauss, quando definiu a antropofagia como um “incesto alimentar”.
A tentação de urdir teorias sobre a origem oculta da antropofagia tem estimulado muitos estudiosos, incitando-os a aventurar-se mais a frente da interpretação simplista do colóquio sexual. Sgmund Freud, por exemplo, tratou de reconstruir, em  Totem e Tabu, o episódio mítico durante o qual os irmãos, ciumentos do pai, que era dono de todas as mulheres, o mataram e o devoraram, colocando assim fim ao regime patriarcal da tribo. Aquela incorporação permitiu-lhes, sempre a juízo de Freud, apoderar-se do modelo paterno e identificar-se com ele. André Green, autor do ensaio Le cannibalisme: realité ou fantasme agi: acha que a força notável da hipótese de Freu reside precisamente no fato  de conjugar múltiplos temas fascinantes: sacrifício, parricídio, incesto (e sexualidade em geral), canibalismo, identificação, introjecção do superego e de suas proibições.

Primeiros os parentes

A hipótese de Freud, embora cativante, não é corroborada por nenhum testemunho histórico e, escreve Green, apoia-se mais na fantasia e no mito do que na ciência. Gira, acrescenta o mesmo autor, em torno de uma interpretação sociológica do totemismo, enxertada num tronco pseudobiológico.
É certo que o canibalismo é bastante comum entre os animais: muitos peixes, se comem uns aos outros; os ursos, os javalis, os coelhos, as cobaias e sobretudo os porcos devoram, muitas vezes, suas crias. Algumas espécies começam por ingerir a placenta, depois o cordão umbilical e finalmente o recém-nascido. Ao homem sempre pareceu assustador, aliás, o costume daquelas aranhas fêmeas, que matam e devoram o macho apenas terminado o ato sexual. Mas nada autoriza a forjar paralelismo fantasiosos entre esses animais e o homem, nem a supor que os antepassados da espécie humana ou os primeiros homens se comiam entre si. Aparentemente a antropofagia não era então, como não é agora, um traço comum a todos os povos aos quais chamamos selvagens. Quando apareceu na terra, numa data imprecisa, distintas raças a praticaram em épocas e lugares igualmente diferentes.
A palavra de origem grega antropofagia, que figura em escrito da era pré-cristã, serve ao menos para inferir que o costume não era desconhecido entre os antigos e que, além disso tinha suficiente difusão, uma vez que vários autores a mencionavam em suas obras literárias. Polifemo, o ciclope de A odisseia, é um dos primeiros antropófagos da ficção épica. Naturalmente horrorizados com as notícias que lhes chegavam de terras “bárbaras”, os antigos utilizaram a antropofagia para dramatizar alguns episódios de sua mitologia. Cronos, um deus polífero, devorava seus filhos porque temia que estes lhe arrebatassem o poder e a vida. Atreo, rei de Micenas, matou a Tântalo e Plistenes, filhos de seu irmão Tieste e logrou através de enganos, que este os comesse sob aparatos apetitosos manjares. Progne, filha do rei de Atenas, perpetrou o mesmo embuste contra seu esposo, Tereu, para vingar-se dele, que havia violado Filomena, irmã de Progne.
Os cronistas dos tempos pré-cristãos estavam atentos às manifestações de antropofagia e se ocupavam de registrá-las, como fatos curiosos, em seus livros. Empédocles descreve, no fragmento VII das Purificações, uma matança, na qual seres unidos por estreitos laços de parentescos “devoravam uma carne que era deles”, sob o império da discórdia. Heródoto fala dos masagetas, um povo de costumes bastante peculiares. “Cada um casa-se com uma mulher, mas o uso das mulheres casadas é comum para todos”, explica atônito Heródoto, acrescentando em seguida: “Se alguém fica caduco, reúnem-se todos os parentes, matando-o em seguida, junto com várias reses, sendo feito com a carne dos mesmos (o velho e os bois) um grande banquete. Esse modo de sair da vida é considerado entre eles como uma felicidade extrema. Se alguém, entretanto morre de doença, não se convida ninguém para comer sua carne, que é enterrada, com pesar por parte de todos, pois a pessoa em questão não conseguiu chegar ao ponto de ser imolada.
As referências ao canibalismo aparecem, igualmente, nos livros do Antigo Testamento, como uma ferramenta retórica apropriada para descrever casos limites e enunciar prognósticos terríveis. “Comerás o fruto de teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas que Jehová, teu Deus, te deu, no lugar e com o apuro com que te angustiará teu inimigo”, se lê no Deuteronômio 28:53, versículo que encabeça uma série de vaticínios relacionados com a generalização da antropofagia. Segundo Reis II, 6:25-29, durante o sítio de Samaria “houve grande fome” e duas mulheres concordaram em comer sucessivamente seus respectivos filhos. Uma delas cumpriu sua parte no pacto, mas no dia seguinte, a outra ocultou seu rebento. Voltaire ironiza essa passagem, escrevendo em seu Dicionário Filosófico: “Contudo é menos verossímil que duas mulheres não tivessem, com uma criança, o bastante para se alimentar um par de dias; seria suficiente até para quatro”. “O que se deve crer, adverte Voltaire, é que pais e mães devem ter comido os próprios filhos durante o sítio de Samaria, como foi predito no Deuteronômio.” Em Jeremias 19:9 repetem-se os maus augúrios: “E os farei comer a carne de seus filhos e a carne de suas filhas e cada um comerá a carne de seu amigo”. As passagens de Lamentações 4:10 e Ezequiel 5:10 não são, afinal, mais do que variações sobre este mesmo tema.
Ainda no Dicionário Filosófico, o gênio cáustico de Voltaire se estende sobre a questão. Citando Júlio Cesar, afirma que os primitivos gauleses não estavam livres de reproche e que os defensores da cidade sitiada de Alexia decidiram por pluralidade de votos “comerem todas as crianças, umas atrás das outras”, pois “desse modo as forças dos combatentes não ficariam debilitadas”. Transcreve também palavras de São Gerônimo: “Vi escoceses nas Gálias, que, podendo alimentar-se nos bosques com a carne dos porcos do mato e outros animais, preferiam cortar as nádegas dos homens jovens e os peitos das donzelas, sendo esses seus alimentos favoritos”. Acrescenta Voltaire: “Pode-se discutir com um padre na Igreja sobre o que se ouviu dizer, mas sobre o que se viu, com os próprios olhos, não se deve discutir, porque seguindo tal sistema, o mais seguro é desconfiar de tudo, até daquilo que se viu.”

Afinal, o que é barbarismo?

Adiantando-se aos antropólogos modernos, Voltaire vislumbrou a importância que tem a diversidade de pautas culturais quando se trata de julgar os costumes alheios. Em 1731, o filósofo conversou em Fontanebleau com uma senhora de Mississipe, “a qual perguntei se já havia alguma vez comido carne humana, ao que ela, francamente me contestou que sim... Notando que fiquei assombrado com sua resposta, defendeu seu proceder, dizendo-me que era preferível comer o inimigo morto, do que deixar que fosse devorado pelas feras. Os vencedores deveriam ter essa preferência...” E acrescenta Voltaire: “Nós matamos nas batalhas os nossos inimigos e, pela mais insignificante recompensa, proporcionamos alimentos aos corvos e aos vermes, sendo este sim um verdadeiro crime. Pois ao certo tanto faz ser devorado por um soldado, corvo ou carnívoro. Dessa forma estamos respeitando mais os mortos que aos vivos, quando deveríamos respeitar a ambos de igual forma.”
Voltaire parecia guiar-se, em relação à diversidade cultural, pela visão crítica de seu predecessor, Miguel de Montaigne, que escreveu no século XVI: “Não deixo de reconhecer a barbárie e o horror à ideia de se comer o inimigo, mas o que me surpreende é que compreendamos e vejamos suas faltas, mas sejamos cegos para reconhecer as nossas. Creio ser mais bárbaro comer um homem vivo do que comê-lo morto, desgarrar, por meio de suplícios e tormentos, o corpo ainda cheio de vida, assá-lo lentamente para logo depois jogá-lo aos cães e aos porcos; coisas como essas não lemos em nenhum livro, mas presenciamos recentemente. E não se tratava de antigos inimigos, mas sim de vizinhos e concidadãos, com a circunstância agravante de que paras se cometer tais atrocidades, valeu-se do pretexto da piedade e da religião. Isso eu considero ainda mais bárbaro do que assar o corpo de um homem morto e depois comê-lo”.
Sintomaticamente, o grande interesse despertado pela antropofagia na Europa, nos tempos de Montaigne, foi produto dos rumores que circulavam sobre os costumes dos aborígenes americanos, rumores que ajudaram a estender um véu de esquecimento sobre os antecedentes que tal prática tinha no Velho Mundo. Cristóvão Colombo foi o primeiro que colocou em marcha, talvez inconscientemente, os mecanismos de ocultamento: quando chegou aos seus ouvidos o fato de que os habitantes, designou a todos os consumidores de carne humana com o nome de “canibais”. Imediatamente os europeus legaram ao esquecimento a palavra “antropofagia”, cuja raiz grega trazia incômodas recordações sobre as práticas de sua antiga civilização, e passaram a utilizar o termo “canibalismo” como para ratificar que a barbárie só podia provir de outras latitudes.

Boas maneiras

Acontece que, como adverte Jean Pouillon em seu estudo sobre “Maneiras à mesa, maneiras ao leito, maneiras de linguagem”, a miúde os antropófagos se sentem ofendidos quando são catalogados como tais. “Os canibais, explica Pouillon, são sempre os outros, e esses outros são precisamente os “selvagens”, os que não conhecem as boas maneiras”. Os fatalekas do arquipélago das ilhas de Salomão “opõem seu canibalismo institucional... ao canibalismo selvagem... O mito fundador da célebre associação política das “Cinco Nações” iroquesas narra como os homens passaram do canibalismo selvagem, monstruoso, ao canibalismo institucionalizado, socializado. Os guayaquies não necessitam recorrer aos mitos para condenar o canibalismo: comem seus próprios mortos, e isso é considerado correto, mas seus vizinhos, que matam os inimigos e os comem, dão um exemplo do que é necessário precaver-se. Eles sim são verdadeiros canibais.”.
Semelhantes diferenciações, que nos parecem absurdas soa possíveis em razão da quantidade de normas dietéticas, tabus e preceitos rituais que rodeiam a prática da antropofagia. “O canibalismo, sublinha Pouillon, é um modo de pensar mais do que uma forma de comer”. Os enxocanibais, continua Pouillon, não comem seus defuntos, enquanto os endocanibais não comem os estranhos. Há antropófagos que comem exclusivamente pessoas do mesmo sexo masculino e outros que não fazem qualquer discriminação. O consumo pode ser total ou parcial. A distribuição das partes pode ser aleatória ou estar regulamentada. Há tribos que inclusive autorizam a própria vítima a escolher, antes de ser morta, entre seus parentes, aqueles que poderão saborear a sua carne.
A prática pode estar generalizada ou circunscrita a determinadas categorias de indivíduos: nas ilhas Fidji, por exemplo, os únicos autorizados a praticar a antropofagia são os sacerdotes e chefes, e a carne humana só pode ser tocada com garfos especiais, enquanto os alimentos comuns são comidos com as mãos.
O trânsito do canibalismo selvagem ao canibalismo selvagem ao canibalismo mítico e socializado também se manifesta na preparação culinária e nos hábitos de mesa. Na primeira etapa, o indivíduo procede à ingestão solitária de um defunto, cru, e não o comparte com outros comensais. Na segunda etapa aparecem as regras e os ritos, em geral muito complexos, governam o consumo de um cadáver cozido. Geralmente o aproveitamento é total sendo desdenhados apenas os ossos. Os yanomani são uma exceção, porque deixam apodrecer a carne do cadáver, para depois limpar e moer os ossos, que são comidos misturados com purê de bananas.

Comunhão íntima

O estudioso dinamarquês Kaj Birket-Smith sustenta, em Vida e História das culturas, que as origens da antropofagia se remontam ao ingresso do homem na economia agrícola. “Do mesmo modo que os caçadores se identificam com o animal totêmico, escreve Birket-Smith, os agricultores, por sua vez, identificam-se com as plantas, e à ideia de que a fruta tragada pela terra continua, apesar de tudo, vivendo, surge a ideia da antropofagia. Em nenhum outro escalão cultural aparece em igual medida, como nos mais antigos agricultores, a prática da canibalismo, a caça às cabeças, os sacrifícios humanos em massa e as extravagâncias sexuais”.
Do ponto de vista dos agricultores primitivos, o ser humano apenas tem sua vida assegurada quando comparte plenamente sino das plantas. Come-se a planta, e portanto é preciso comer também o homem. A essência intrínseca do canibalismo, que reside no desejo de unificar-se ao morto, fica clara quando oficiar-se comer seus parentes mortos. Com isso, não apenas consegue renovar suas foras vitais próprias, mas também que os pais continuem vivendo em seus descendentes, a estirpe nas crianças, no eterno ciclo de vida e morte. Ao matar os anciãos, o canibal procede em consideração a eles próprios antes que tenham esgotado sua força vital. Come a carne do velho e do seu nome para assegurar-lhe a vida depois da morte, incorporando-o dessa estranha maneira.
Birket-Smith afirma que “a mesma ideia que fundamenta o canibalismo em sua forma originária, voltamos a encontrar no sacramento da comunhão, que em seus primórdios foi um ato puramente mágico. A divindade apresenta-se em forma humana ou animal, e a comunidade participa na essência da divindade, comendo a carne dela. No México adornavam a um jovem esbelto com a vestimenta de deus Tzcatlipoca, desposavam-no com quatro moças, que levavam o nome de quatro deusas, rodeavam-no de luxo faustoso, e lhe permitiam gozar durante um ano inteiro de todas as honras que correspondiam a sua alta dignidade. Mas, ao transcorrer esse lapso de tempo, o levavam a pedra de sacrifício, onde um sacerdote, armado de uma faca sagrada, lhe abria o peito para arrancar-he o coração. O corpo morto era imediatamente comido... Muito mais tarde dá-se então um sentido simbólico ao sacramento da comunhão, o da união espiritual com a divindade.”
São esses elementos atávicos que floresceram novamente quando um dos sobreviventes do avvião uruguaio, que caiu na cordilheira dos Andes, em Outubro de 1972, Alfredo Delgado, disse numa entrevista coletiva à imprensa: “Tinha chegado o momento no qual já não tínhamos qualquer alimento, então pensamos: Se Jesus, em sua última ceia, repartiu seu corpo e seu sangue a todos os apóstolos, estava aí nos dando a entender que nós deveríamos fazer o mesmo. E tomamos seu corpo e seu sangue, que se haviam encarnado. E isso, que foi uma comunhão íntima entre todos nós, ajudou-nos a subsistir. E foi uma entrega de cada um”. Como se sabe, Delgado estava se referindo ao caso de antropofagia por necessidade mais comentado dos últimos tempos.
A antropofagia por necessidade é, isso é claro, a que perdurou com mais força entre os grupos que, dentro da relatividade das pautas culturais, definimos como civilizados. No Antigo Testamento abundam as referências a essa compulsão. Em seu livro Guerra dos Judeus, Flávio Josefo narra que Maria, filha de Eleazar, matou e comeu seu filho durante o cerco de Jerusalém por Tito. As regras de guerra do rei Afonso, o Sábio, também admitem a possibilidade do pai comer o filho “se estivesse em tal estado e fome e não tivesse qualquer outra maneira de saciar essa sua necessidade”. Os episódios de antropofagia, aliás, foram comuns durante o cerco de Paris, em 1590, e durante a grande fome de Argel, em 1868.
Em 1884, registrou-se um caso de canibalismo que haveria de enriquecer a jurisprudência: os náufragos do yate La Mignonette, que estavam há vários dias vagando pelo mar num bote salva-vida, sem ter o que comer e o que beber, terminaram matando um gumete de 17 anos, que estava doente por ter bebido água do mar. Beberam seu sangue e alimentaram-se de sua carne durante vários dias, até que foram vistos por um barco alemão que os içou a bordo. Os três tripulantes do barco salva-vidas foram julgados em Londres, tendo o tribunal condenado à morte a dois deles, absolvendo o terceiro que, embora também se alimentara de carne humana houvera sido contra a execução do grumete. A rainha Vitória posteriormente comutou a pena de morte por seis meses de prisão.
Poucos detectaram nesse momento uma coincidência notável. Exatamente meio século antes a mente atormentada de Edgar Allan Poe havia alinhavado, em Aventuras de Artur Gordon Pym, uma fantasia macabra que pressagiava quase ao pé da letra os fatos de La Mignonetre. Gordon Pym e os outros tripulantes do baleeiro Grampus, que navegava a esmo, elegem, por sorteio quem irá lhes servir de alimento. “Não insistirei a respeito do terrível festim que se seguiu – lê-se na novela – basta dizer que, depois de haver apaziguado até certo ponto, com sangue da vítima, a abrasadora sede que nos consumia, atiramos ao mar, por comum acordo, a cabeça, as mãos, os pés e as vísceras, e comemos o resto do corpo, pedaço por pedaço, durante os quatro memoráveis dias que se seguiram.”
A antropofagia por necessidade é, obviamente, a que a sociedade tolera com mais benevolência. Ao ter-se notícia do acontecimento na cordilheira dos Andes, no final de 1972, o teólogo Gino Concetti escreveu no L’Osservotore Romano que “se é admissível que para sobreviver pode-se enxertar qualquer órgão ou parte do corpo de um morte em um ser vivo, não há razão por que, num casa extremo, os homens não haveriam de servir de todo o corpo de um morto, a fim de se salvar. O fato apenas tem uma aparência de canibalismo. A necessidade de sobreviver tira todo o aspecto negativo deste comportamento.

Arte agressiva

Os estudiosos admitem que é impossível traçar linhas divisórias rígidas entre diversas origens e motivações dos atos antropofágicos e que estes resultam de um intrincado entrecruzamento de fatores desencadeantes. Há, entretanto, traços sobressalentes que permitem esboçar uma classificação empírica elementar.
Embora pareça paradoxal, pode-se falar de antropofagia por afeto, que é aquela que Heródoto atribui aos massagetas.  Os binderwurs da Índia Central matavam e comiam os fracos e os anciãos “pensando ser este um ato de misericórdia, grato à deusa Kali”. Os tangara levam seus mortos consigo e, cada vês que se sentem tristes pela morte de seus entes queridos, comem um pouco de sua carne, até restar apenas os ossos. Lyden descreve um costume canibalesco que tem toda a aparência de uma cerimônia muito piedosa. Os anciãos e doentes se oferecem a seus descendentes para que estes os comam. A vítima sobe numa árvore, em torno da qual se reúne sua família entoando um hino fúnebre: “A estação chegou; o fruto está maduro e deve cair.” A vítima desce e é executada e ingerida em um solene banquete.
No polo oposto encontra-se, presumivelmente a antropofagia por ódio e por vingança. “Que  a ira e a raiva me induzam a devorar em pedaços, cortados e cru, o corpo do malvado, antes que mais danos ele produza”, diz uma famosa imprecação de Aquiles. As tribos ferozes da Nova Caledônia apenas consideram que a vingança está completa quando devoram seus inimigos mortos. Os nativos de Samoa também praticavam a antropofagia movidos pelo ódio, e seu pior insulto era: “Assarei você”. Inclusive depois de renunciar ao canibalismo, os samoanos obrigavam seus cativos a oferecer-lhes tochas acessas e a recitar a seguinte súplica: “Mate-nos e cozinhe-nos quando quiser”. Alguns estudiosos de nossos índios brasileiros chegam a afirmar que os tupis comiam seus inimigos e criavam os filhos desses para comê-los quando completassem 14 anos.
O mais chocante de todos é, sem dúvida, o canibalismo por gula. Birket-Smith conta que para os mangabetus, que vivem no limite entre o Congo e o Sudão, “a carne humana representa uma guloseima que se vende nos mercados, bem apresentada e envolta em falhas frescas”. Cieza de León espantou-se porque os índios da Colômbia, catalogados como os mais ferozes canibais da America do Sul, tinham especial prazer em matar as mulheres grávidas, como propósito de comer-lhes o embrião, cuja carne muito lhes agradava. Jean De Lery escreveu a respeito dos tupis: “Todos confessam que a carne é maravilhosamente saborosa e delicada”. A carne das anciãs era, acima de qualquer outra, seu manjar predileto. Entretanto, a gula não era a única nem a principal motivação dos tupis, assevera Lery. O que mais os interessava, quando roíam os mortos até os ossos, era “espantar os vivos”.
“Espantar os vivos” é também o objetivo que pretende alcançar a cíclica reiteração do tema antropofágico na arte. Basta recordar, por exemplo, as alucinantes imagens que Goya pintou em dois de seus quadros intitulados Os canibais. A literatura e o drama são outros dois gêneros nos quais a antropofagia assoma como uma alegoria ideal para transmitir mensagem de castigos exemplares. Esta técnica intimidatória repete-se em várias histórias infantis, como a de Hansel e Gretel, que tem suas raízes no folklore tradicional, ou em lendas famosas, como Tito Andrônico, a tragédia de Shakespeare, que relata a história mitológica do culpado que como, sem saber, um prato preparado com a carne de seus próprios filhos.
Foi Jonathan Swift quem levou até as últimas consequências o emprego simbólico e moralizador da antropofagia, num desbordamento exasperante de humor negro. Com a finalidade de sacudir a sensibilidade de seus contemporâneos e de comunicar-lhes a magnitude tétrica da pobreza e fome que assolavam o Grã-Bretanha por volta de 1700, Swift redigiu seu panfleto satírico intitulado Uma Modesta Proposição, no qual, depois de descrever a proliferação de “mendigas seguidas por três, quatro ou seis crianças, todas farrapos”, que importunam os passantes pedindo esmolas, dá como certo que “todos estão de acordo que este prodigioso número de filhos, nos braços às costas ou seguindo suas mães e frequentemente seus pais é, na atual situação deplorável do Reino, outra grande injustiça”.
O que Swift aconselha, pois, humildemente, é que as mães amamentem seus filhos durante um ano, coisa que podem fazer a baixo custo, e que em seguida o Estado separe um lote de cem mil crianças de um ano e as ofereça “em venda às pessoas de qualidade e fortuna de todo o reino. Recomenda também que sempre a mãe lhes permita mamar copiosamente no último mês, a fim de tornar as crianças gordinhas e tenras para uma boa mesa. Uma criança servirá bem para a confecção de dois pratos quando se tem amigos convidados. Quando a família come sozinha, o quarto dianteiro bastará para se fazer um prato razoável, que temperado com um pouco de pimenta e as, e bem fervido, poderá durar até quatro dias, principalmente no inverno... Suponho que tal manjar custará um pouco caro – acrescenta intencionalmente Swift, e por tanto muito adequado para os abonados que, como já devoraram a maioria dos pais, parecem reunir as melhores condições para aspirar também os filhos”.
Também o Marquês de Sade não perdeu a oportunidade de introduzir a antropofagia em seu nutrido catálogo de aberrações. “Meus amigos – escreveu em Julieta – já os preveni que aqui só nos alimentamos de carne humana; todos os pratos aqui apresentados foram preparados com ela. -  Provaremos, contestou Sbrigan; as repugnâncias são formas de absurdo: são defeitos criados pelo hábito; todas as comidas feitas para o sustento do homem, todas, nos são oferecidas pela natureza para essa finalidade e não há qualquer diferença entre comer homem ou frango. Enquanto dizia isso, meu marido enterrou o garfo num pedaço de criança assada, que lhe pareceu bem ao ponto, e colocando pelo menos meio quilo sobre seu prato, o devorou em poucos instantes. Eu o imitei...”
Não é estranho, com semelhantes antecedentes, que em nossa época, repleta de matanças e injustiças que se cometem em escala universal, muitos artistas e sobretudo cineastas, tenham revivido, por intermédio da parábola antropofágica, as agudas reflexões com que Montaigne e Voltaire tentaram desmentir a pretensiosa superioridade do europeu sobre o selvagem. As agressivas cenas dos filmes como A Pocilga (Piero Paolo Pasolini), Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade), Week-End (Jean Luc Godard) refletem, segundo André Green, “a vontade de interpretar a violência típica de nossas sociedades como uma prolongação apenas modificada de uma relação canibalística”.
Teoricamente a antropofagia habitual está restrita, na atualidade, a algumas tribos americanas isoladas e aos habitantes de comarcas da África equatorial e central, a algumas ilhas do arquipélago Malaio e Melanésia e de zonas remotas da Austrália. Mas, é possível que tal enumeração seja equívoca e que o homem civilizado esteja tão longe de ter superado sua antropofagia como o estava aquele chefe de tribo que, consultado por um explorador, respondeu-lhes: “não, claro que aqui não há mais canibais. Ontem comemos o último”.