Terapia Ocupacional: Ressonâncias


BREVES ANOTAÇÕES DE ITINERÁRIO.
 
 
 
Em Terapia Ocupacional, há relutância em atribuir ao acaso um papel importante, pois isso tiraria parte do mérito da criação.

O Acaso é um fenômeno que só se torna significativo quando alguém o percebe e confere importância.

O acaso é tão importante em ciência que até tem nome especial: “SERENDIPTY”

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A cidade, hoje, parece ter chegado ao limite da tensão, mas esta tensão é também uma riqueza.

O homem tem necessidade do urbano, do convívio, do trabalho.

O fato triste é que a arquitetura está se tornando cada vez mais pobre, mais homogeneizada, modelizada, serializada, fazendo com que os grandes centros urbanos percam sua identidade e, assim morram um pouco.

Penso, no entanto, que a cidade é um lugar extraordinário, a imagem física da história. A cidade é nossa mãe.

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A finalidade de cada ato de criação é encontrar a riqueza do passado, a Terapia Ocupacional precisa proporcionar ao paciente falar do grande passado.

Eu espero que haja uma arcaicidade do futuro, e que os produtos em Terapia Ocupacional, venham a ser como totens que falem das necessidades primordiais do homem.

A Terapia Ocupacional não é uma intervenção para ocorrer em um lugar, mas um instrumento-intervenção para construir esse lugar.

Quando o paciente pinta ou desenha uma casa, percebo que está querendo me transmitir uma sensação de refúgio, de caverna primitiva, onde o homem encontra sua intimidade e sua memória,

Penso a casa como um refúgio da memória, como um signo de fragilidade e proteção, porque é disto que o homem precisa.

A casa é a habitação primordial do homem.

______________________________________________________________________________________Porque Guernica é belo? De um ponto de vista estreitamente estético pode ser considerado horrível, mas se tornou um ato extraordinário da cultura porque Picasso não só dimensionou o massacre facista, ele disse com a pintura que o homem não deve matar outro homem.

Foi o valor moral-ético da denúncia que tornou extraordinário o gesto pictórico.

 
A Terapia Ocupacional é antes de tudo uma intervenção ética, porque deve propor ações terapêuticas ligadas a qualidade de vida do homem.

 
Em Terapia Ocupacional o material é imóvel, mas não inerte. Isto porque promove no individuo em que o manipula a emergência de emoções, muitas delas até adormecidas. Presenciamos isto muito bem em pacientes psicóticos que ao entrarem em contato com materiais, produzem uma palavra ou mesmo denunciam no corpo alguma emoção vivida.

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A música, por exemplo, certos pacientes autistas se sentem por demais atraídos por ela. Muitas vezes chegam a instituição, quase que como congelados e diante de uma experiência sonora ou musical respondem através de algum gesto. Presenciei muitas vezes estes pacientes acompanharem o ritmo da música com uma suave batida dos pés ou mesmo o tamborilar dos dedos. Naquele instante tinha a clareza do quanto estavam ali sintonizados, interagindo com aquele contexto.

 
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As Mãos

 
As mãos não são como os pés. Apesar de terminarem ambos nossas extremidades, apesar de serem igualmente indispensáveis para o pleno exercício do corpo.

 
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Esses pintores fantásticos

 
A pintura deles, que dizer, dos loucos, depende mais dum estado de espírito que de qualquer estilo especifico. A visão interna tem papel preponderante para o ato de criar. O mundo interno tem uma supremacia sobre o mundo externo. Dessa forma, a imaginação de “cada pintor” é um reino privado, as imagens que ela proporciona também são particulares, a menos que ele as submeta a um processo delicado de seleção.

Mas como hão de essas imagens “não dirigidas” ter uma significação para o contemplador, cujo mundo intimo não é o mesmo do artista? A psicanálise ensinou-nos que, neste aspecto, não somos tão diferentes um dos outros quanto gostaríamos de pensar. As nossas mentes obedecem a um esquema básico semelhante, tal como a imaginação e a memória.

Estas pertecem ao setor inconsciente do espírito onde as experiências pessoais são armazenadas, quer as desejamos recordar, quer não.

Daí o estarmos sempre interessados por coisas imagináveis, desde que nos sejam apresentados de modo que pareçam reais.

O que sucede num conto de fadas, por exemplo, seria absurdo na linguagem seca de uma noticia de jornal, mas quando nos é contado como deve ser, ficamos encantados.

Mas porque razão a fantasia pessoal tem um papel tão grande na arte?

Podemos pensar essa questão através do surrealismo, cujo objetivo era o “puro automatismo psíquico”... para exprimir... o verdadeiro processo do pensamento... liberto do exercício da razão e de qualquer finalidade estética ou moral”.

 
Em Terapia Ocupacional a pintura torna-se um correlativo da vida: um processo contínuo em que o paciente enfrenta os mesmos riscos e ultrapassam os dilemas que lhe apresentam, através de uma série de decisões, conscientes ou inconscientes, como reações a exigências quer do mundo interno quer do mundo externo.

 
A arte deve nascer fora das ideias e tradições das escolas artísticas.

 
A arte em bruto. “L’art Brut”, assim chamou DUDUFFET, as produções artísticas, movidas pela franqueza e espontaneidade do artista.

 
É uma arte crua. O seu duro realismo, a sua presença explosiva e orgulhosa, são a antítese da disciplina formal.

 
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PERGUNTAS A MIM DIRECIONADAS NOS MAIS DIVERSOS EVENTOS CIENTÍFICOS DOS QUAIS  PARTICIPEI, COMO CONFERENCISTA E RELATOR EM MESAS REDONDAS. 

Encontrei perdido em uma de minhas gavetas da minha biblioteca um enorme envelope, no qual estava contido uma coleção de papeizinhos com algumas coisas escritas. Quando começei a lê-los identifiquei que se tratavam de perguntas a mim dirigidas em eventos dos quais participei. Analisei com cuidado, e curioso, é que essas perguntas constroem um mosaico interpretativo de um tempo da Terapia Ocupacional. Algumas dessas perguntas chegaram-me identificadas por eventos, outras encontram-se suspensas no espaço e tempo, porém, acredito eu, que elas constroem entre si uma marca.
Quero esclarecer que onde se ler CECOP, leia-se também, Centro de Convivência da Pessoa. Instintuição por mim criada para cuidar de pacientes psicóticos. Isto na década de 80. Sobre essa instituição encontra-se publicado na sessão home o texto: Os experimentos do CECOP - Centro de Convivência da Pessoa.
A ideia de publicar essas perguntas é muito mais em função de uma provoção a cada um de vocês que acessarem o blog. E havendo interesse, como cada um responderia a pergunta no tempo de hoje.


Mesa Redonda: Ética e Praxis
ENORFITO - Encontro Nordestino de Fisioterapeutas e Terapeutas Ocupacionais. João Pessoa - PB / Setembro de 1992

*Tomando o caos social em que vivemos a beira da psicose você veria a socioterapia como forma alternativa de emprego da Psicologia e Psiquiatria em Comunidades?
Levando em consideração um novo conceito de loucura, onde esta estaria diretamente ligada a impossibilidade do individuo de se assumir enquanto sujeito de um processo histórico.
Como você vê esta questão?   (Sem identificação)


*Como resolver a questão do sigilo quando o cenário terapeutico é ultizado por mais de um cliente?   (Edna, Belo Horizonte)


*Qual é a sua profissão?
Você sempre coloca seus honorários em aberto e os discute com o paciente?   (Débora, Belo Horizonte)


Mesa Redonda sobre abordagens terapeuticas com psicóticos.
Semana de Estudos da Tamarineira - Recife - PE / Junho 1987


*Gonzaga,
Foi interessante sua ligação da atividade de T.O com a condição feminina. Gostaria que você exemplificasse?   (sem identificação)


*Sendo o psicótico um individuo comprometido em suas relações interpessoais. Como ele é introduzido na socioterapia?   (sem identificação)


*Como é vista objetivamente a socioterapia pelas instituições INPS, IPSEP onde são atendidos hospitalizados a maior clientela de psicóticos?   (sem identificação)


*Tendo observado que em alguns hospitais os pacientes que desenvolve atividades laborativas ligadas ao setor de Terapia Ocupacional, recebem uma remuneração mensal. Gostaria de saber da opinião de vocês quantos ao vínculo?   (sem identificação)


*T.O x Dinheiro ser terapeutico. Até que ponto os pacientes só se sentiriam estimulados a participar de T.O pelo retorno financeiro?   (sem identificação)


Congresso Brasileiro de Fisioterapia - Belo Horizonte / 13 à 17 de Outubro de 1985
Mesa Redonda sobre Ética.


*Com relação à excepcionais, o que pode acarretar de lesivo para paciente e terapeuta, uma terapia em que não há um bom relacionamento empático entre eles?   (Profissional Rosana - Campos Novos - SC)


*Se não há uma empatia do fisioterapeuta para com o paciente, até quando levar a relação?
Como interrompe-lo sem magoar o paciente?   (Profissional Marisa Lemos)


*Quanto ao trabalho em instituiçãos filantrópicas, em que não se cobra do paciente, como podemos ver a questão da falta as sessões?   (Profissional Fernando Mello)


*No caso do telefone se pedimos lincença será que haverá algum problema. Acontecendo uma vez ou outra?   (Profissional Onofre - Campo Grande - MS)


*Até que ponto, quando o terapeuta se encontra desmotivafo para terapia, com determinado pele, deviado à própria desmotivação do pele; deve-se continuar a terapia?   (Profissional Rosa - Campos Novos - SC)



Baseado em nossa realidade institucional e social, como se fazer um trabalho terapêutico em um macrohospital? Levando em conta as fundamentações teórico-prática aqui argumentadas?



A medicação como complementação leva o paciente a cura total ou funciona apenas como um paleativo?  Pode ocorrer um surto mais forte do que o anterior quando o efeito da medicação passar?



Porque a jardinagem favorece um resgate da afetividade?  



Tendo um grupo formado, de pessoas que estão num grau de sociabilidade parecido, como lidar com o desenvolvimento pessoal diferente de cada um no decorrer do trabalho do grupo?



A terapia ocupacional é válida para uma pessoa esquizofrênica (Jovem)?



Quando existe as reuniões de níveis os terapeutas participam passivamente ou não participam. Se não participam qual tipo de paciente que toma posição de líder?



A esquizofrenia é hereditária?



Quais as principais causas da esquizofrenia?



O individuo esquizofrênico é perigoso? Ou pode vir a ser perigoso?



No caso da primeira agressão física, a elementos de um grupo profissional (estagiário com contrato de 15 dias). Como deveria ser trabalhado com este paciente, com o estagiário e com os outros que presenciaram o fato?



Qual o trabalho na prática do terapeuta ocupacional no que diz respeito a reintegração do paciente psiquiátrico a nível profissional?



Existe aceitação das empresas de pacientes que receberam alta de um hospital psiquiátrico?



Qual a diferença entre esquizofrênico e o doente mental?



Até que ponto a psiquiatria prejudica o esquizofrênico?



O que leva um paciente esquizofrênico a se identificar mais intensamente na pintura?



Quem analisa a tela é o terapeuta ocupacional ou o psiquiatra?



Gostaria de saber se no inicio da crise o paciente não apresenta embotamento afetivo, pois quando ele começa a projetar na pintura pessoas namorando ele já deve ter saído do processo agudo?



Quais as primeiras medidas a serem tomadas para transformar um hospital psiquiátrico comum em comunidade terapêutica?



As pessoas que costumam fazer esboços geométricos têm tendências esquizofrênicas?



Quais os primeiros indícios observados na afirmação de ser a pessoa esquizofrênica?



Gostaria de saber se existem livros a respeito de comunidade terapêutica. Quais?



Podem falar mais sobre a psicologização do entendimento?



Como preparar o individuo para a morte. Você não acha que a partir do momento que ele aprende a viver ele pode também “viver” a morte?



Quantos elementos e quais as suas especificações que compõem uma comunidade terapêutica? Em média.

Às vezes vários profissionais preocupam-se com a dita reintegração do sujeito á “realidade”. Você usa muitos termos da subjetividade, o que acredito ser o resgate a cidadania, a partir de sua particularidade, quer dizer não preocupando-se primordialmente com a reintegração do paciente a uma realidade externa. Você concorda? Se possível comente.



Qual a esperança que se deve dar ao paciente? Abordagem colocada por você no final da exposição.



Como fazer para cuidar da espiritualidade se não temos identificação com as religiões em geral?



Como ocorre o processo seletivo (o ingresso) de pacientes no CECOP?



É permitida a visitação ao CECOP?



De que forma funciona a triagem, o encaminhamento e o endereço telefônico?



Os pacientes que se encontram neste centro, o que eles acham, ou seja, dizem sobre o centro?



A família dos doentes mentais visitam regulamente? O que a família fala sobre isso?



Como não há psiquiatras na instituição. Como são tratados os pacientes na fase aguda do surto psicótico?



A família do psicótico é orientada para facilitar a sua reintegração socialmente?



No 1º dia deste evento houve referência de um palestrante dizendo que a questão de segurança aos trabalhadores dentro de hospitais psiquiátricos é de condição prioritária e que eles não poderão ser jogados as “feras” – você não acha que enquanto houver profissionais dessa natureza, fica mais difícil aceitarmos profissionalmente o doente mental?



Onde fica o CECOP?

Como a população tem acesso, convênios?

Custo mensal de um paciente? (média hoje)

Existe um período definido para o tratamento do paciente no CECOP?



Não há um meio de proibir liberação de medicamento a alcoólatras quando esse tem alta, evitando a soma das drogas?



Qual a diferença que existe entre o paciente psicótico e o paciente neurótico? E porque você não abre espaço para os pacientes neuróticos?



Como surge a psicose no individuo. Está ligada ao ambiente familiar?



O psicótico é agressivo?  



Quais os principais sintomas do paciente psicótico e como podemos caracterizar que a doença existe. E qual o especialista mais indicado para tratar desse sintoma?

-Psiquiatra

-Psicólogo

-Terapeuta



Existe algum trabalho dessa natureza no serviço público?



O CECOP tem convenio com algumas empresas?

Tem interesse de conveniar-se com empresas privadas?



O servidor público através do IPSEP tem condições de desfrutar do CECOP? Há algum convênio?



A clínica tem convênios com empresas?



O Centro de Convivência da Pessoa é gratuito ou não? Tem convênio? Qual o endereço?



Como são encaminhados os pacientes para o CECOP (onde fica) e como ocorre esta interação com os demais profissionais?



O CECOP atende pacientes egressos de hospitais psiquiátricos? Informe o endereço.



O doente mental é o representante de uma desestruturação familiar? Hoje como você analisaria a desestruturação que estamos vivendo a nível nacional. Há coerência neste tipo de associação ou não?



O homem é um ser falante / social. Como é visto o teu centro pela psiquiatria clássica, onde se trabalha sempre com o abafo dos sentimentos a nível medicamentoso? 




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Apontamentos de um tempo.
Esses apontamento venho encontrando pouco a pouco, dispersos, em contra-capas de livros, em agendas, em pequenos papéis dentro de caixas, em rodapés de conferências. Todos bastante datados, portanto expressam um contexto e o que nele tudo está contido. Vou adorar que vocês entendam e tenham paciência... Certamente que algumas opiniões eu mantenho, sem abrir mão de um milímetro. Enquanto outras considero-as por demais datadas.

A finalidade de cada ato de criação é encontrar a riqueza do passado, a Terapia Ocupacional precisa proporcionar ao paciente falar do grande passado.

Eu espero que haja uma arcaícidade do futuro, e que os produtos em Terapia Ocupacional, venham a ser como tótens que falem das necessidades primordiais do homem.

A Terapia Ocupacional não é uma invenção para ocorrer em um lugar, mas um intrumento-intervenção para construir esse lugar.

Quando o paciente pinta ou desenha uma casa, percebo que está querendo me transmitir uma sensação de refúgio, de caverna primitiva, onde o homem encontra sua intimidade e sua memória.
Penso a casa como um refúgio da memória, como um seguro de tranquilidade e proteção porque é disto que o homem precisa. A casa é a habitação primordial do homem.

Porque Guernica é belo? De um ponto de vista estritamente estético pode ser considerado horrível, mas se tornou um ato extraordinário da cultura  porque Picasso não só denunciou o massacre facista, ele disse que com a pintura o homem não deve matar outro homem.
Foi o valor moral-ético da denúncia que tornou extraordinário o gesto pictórico.

A Terapia Ocupacional é antes de tudo uma intervenção ética, porque deve propor ações terapeuticas ligadas a qualidade de vida do homem.

Em Terapia Ocupacional o material é imovel, mas não inerte. Isto porque  promove no indivíduo que o manipula a emergência de emoções, muitas delas até adormecidas. Presenciamos isto muito em pacientes psicóticos que ao entrarem em contato com materiais, produzem uma palavra ou mesmo denunciam no corpo alguma emoção vivida.
A música por exemplo; certos pacientes autistas se sentem por demais atraídos por ela. Muitas vezes chegam a instituição, quase que como congelados e diante de uma experiência sonora ou musical respondem através de alguns gestos. Presenciei  muitas vezes estes pacientes acompanharem o rítmo da música com uma suave batida dos pés ou mesmo o tamborilar dos dedos. Naquele instante tinha a clareza do quanto estavam ali sintonizados, interagindo com aquele contexto.

As Mãos

As mãos não são como os pés. Apesar de terminarem ambos nossas extremidades, apesar de serem igualmente indispensáveis para o pleno exercício do corpo.

Esses pintores fantásticos

A pintura deles, quer dizer, dos loucos, depende mais de um estado de espirito que de qualquer estilo específico. O mundo interna tem papel preponderante para o ato de criar. O mundo interno tem uma supremacia sobre o mundo externo. Dessa forma, a imaginação de "cada pintor" é um reino privado, as imagens que ela proporciona também são particulares, a menos que ele as submeta a um processo delicado de seleção.
Mas como hão de essas imagens "não dirigidas" ter uma significação para o contemplador, cujo mundo íntimo não é o mesmo do artista? Os grandes teóricos da arte  ensinou-nos que, neste aspecto, não somos tão diferentes uns dos outros quanto gostaríamos de pensar. As nossas mentes obedecem a um esquema básico semelhante, tal como a imaginação e a memória.
Estas pertencem ao setor inconsciente do espírito onde as experiências pessoais são armazenadas, quer as desejamos renovar, quer não.
Daí o estarmos sempre interessados por coisas imaginárias, desde que os sejam apresentadas de modo que pareçam reais.
O que sucede num Conto de Fadas, por exemplo, seria absurdo na linguaguem seca de uma notícia de jornal, mas quando nos é contado como deve ser, ficamos encantados.
Mas porque razão  a fantasia pessoal tem um papel tão grande na arte?
Podemos pensar essa questão através do surrealismo, cujo objetivo era o "puro automatismo psiquico"... para exprimir... o verdadeiro processo de pensamento... liberto do exercício da razão e de qualquer finalidade estética ou moral."

Em Terapia Ocupacional a pintura torna-se um correlativo da vida; um processo contínuo em que o paciente enfrenta os mesmos riscos e ultrapassa os dilemas que lhe apresentam, através de uma série de decisões, conscientes ou inconscientes, como reações a exigências quer do mundo interno quer do mundo externo.

A "arte" deve nascer fora das ideias e tradições das escolas artísticas.

A diferença entre "normal e patólogico" parece-me tão pouco válida como as noções estabelecidas de belo e feio.


Por Gonzaga Leal
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Relato de uma experiência: 
A atividade em Terapia Ocupacional: resgatando, modelando e remodelando fragmentos da história, da cultura e da identidade, na interminável construção da psique.                                                                                                                                 Maria de Lourdes Feriotti

   Busco em minha memória fragmentos de um processo de terapia ocupacional que, através da modelagem em argila, tocou a memória de uma paciente, auxiliando-a em sua reorganização psíquica.

O contexto: 
   Início dos anos 90, uma cidade do interior paulista, uma enfermaria psiquiátrica de urgência em hospital geral, de curtíssima permanência. Uma sala aberta de Terapia Ocupacional, com livre acesso aos internos, sem necessidade de encaminhamento ou entrevista prévia, assim organizada devido ao pequeno tempo de internação e à necessidade aguda dos pacientes em buscar espaços de continência. 

O processo: 
   Sala aberta, alguns poucos pacientes em atividades livres. Maria (nome fictício) entra, fixa-se num determinado ponto da sala e começa a bater os pés no chão, marchando suavemente sem sair do lugar e pronunciando repetidamente as frases: “Não sou mulher de andar calçada, sou mulher de andar descalça... não sou mulher de andar calçada, sou mulher de andar descalça...”  Perguntei-lhe por onde andava, ao que respondeu: “Aqui ando no asfalto, mas gosto de andar na terra”. Perguntei-lhe de onde vinha e disse que viera do Ceará. Perguntei-lhe se lá, no Ceará, ela costumava “brincar” com terra e, tendo uma resposta positiva, perguntei-lhe se gostaria de mexer com argila, oferecendo-lhe o material da seguinte forma: “Aqui temos um tipo de barro que vem no saco plástico, diferente daquele de lá, mas ele pode ser usado como o barro de sua terra”. Aceitou o convite! Dei-lhe o material, sentei-me ao seu lado e perguntei-lhe o que costumava modelar. Disse que modelava panelinhas de barro, em sua infância. Começamos então a desenvolver as panelinhas de barro. Enquanto ela modelava, mantínhamos um diálogo. Embora com fala baixa e um pouco confusa, começou a resgatar memórias da infância, falando, principalmente, de sua mãe, de histórias e sonhos. Enquanto modelava e resgatava as histórias de sua infância, de sua mãe e de sua terra natal, seu discurso ia ficando mais organizado e nosso diálogo mais intenso. De repente, Maria me olha e pergunta: “Você duvida que eu adivinhe o seu signo?”  Não duvidei e aguardei o veredito: “Sagitário!” disse ela, acertando em cheio! Perguntei-lhe: “Como descobriu?” Ao que ela respondeu: “É que tu é porreta!”. Traduzi essa fala como a sua autorização para continuidade do caminho que eu escolhera para abordá-la, como a confirmação de que eu havia conseguido tocá-la em algo que lhe tinha significado.

   Buscando informações com a equipe médica, Maria estava com diagnóstico de transtorno bipolar e havia muita dificuldade para controlar seus sintomas, pois ela mostrava-se muito sensível à medicação, oscilando intensamente do quadro depressivo ao quadro maníaco.  
   Maria voltava com frequência à sala da Terapia Ocupacional e resgatávamos suas modelagens. Contou com mais clareza sua história de imigrante e o contexto de sua crise. Há alguns anos viera do Ceará, com marido e um filho. Naquele momento, morava apenas com o filho, uma vez que seu casamento havia terminado. Sempre trabalhou, mantendo uma situação financeira viável, porém, naquele momento havia perdido o emprego e entrara em desespero. Aqui trabalhava com serviços de limpeza, mas no Ceará era mulher rendeira. 
   Chegamos a esboçar a idéia de voltar a fazer renda, vinculando-se a algum projeto de oficina de trabalho ou cooperativa que, naquela época começavam a desenvolver-se. Essa ideia lhe agradava muito.
   Em poucos dias, Maria apresentou significativa melhora, estabilizando seu humor e, como se tratava de uma enfermaria psiquiátrica de urgência, recebeu alta rapidamente.
   As ideias de inclusão no trabalho não chegaram a ser desenvolvidas, pois os projetos de cooperativa ainda eram muito frágeis e a comunicação entre os serviços de saúde mental da rede hospitalar e extra-hospitalar era muito vulnerável.
   Não tive mais contato com Maria depois de sua alta. Mas esse processo marcou-me pelas potencialidades, nele apontadas, com relação ao uso de atividades culturalmente significativas, tanto para reorganização psíquica quanto para reestruturação da vida laboral. Gostaria de ressaltar a importância da cultura para o resgate e manutenção da identidade, da apropriação de si mesma e, por conseguinte, de seu equilíbrio psíquico.


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TERAPIA OCUPACIONAL
GIRO,
VEJO GENTE,
                      ME MOVO...
                       CONHEÇO...
FAÇO COISAS...
JOGO. ESCUTO. FALO E DANÇO.


Por Gonzaga Leal.
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SOBRE A AUTO-REALIZAÇÃO.

Se eu admito que todo individuo tem direito à auto-realização, acredito que a pessoa pode e deve viver a sua vida, expandir sua capacidade emocional, linguística, corpórea, sexual, produtiva, de satisfação, desde que isso não prive o direito do outro, ou seja, não submeta o outro a dor, que é a ameaça à liberdade. Ao longo de toda a  minha experiência clínica algumas pessoas vieram buscar terapeutizar-se não tanto porque estão sofrendo, mas porque querem maximizar a própria felicidade. E neste aspecto, a noção de ideal toma uma conotação interessante. Não a da promessa, mas da procura persistente do sujeito. A noção que tenho de ideal é; aquilo que no psiquismo, empurra o sujeito para à diante, fazendo aceitar a limitação de maneira a não paralisar o seu pensar, o seu sentir, o seu agir e o seu produzir.
No momento em que a sociedade de consumo apregoa que você chegou lá, realizou o ideal, e ele pode ser obtido pela aquisição de bens, pelo consumo, chegamos ao regime do que podemos denominar ego narcísico ideal, metaforicamente falando, um regime de resposta fetiche a falta.
Considerar isso não é desacreditar ou desvalorizar o desejo que as pessoas têm de se auto-realizarem. Pelo fato de entenderem que a auto-realização passou a ser uma palavra de ordem da publicidade, do consumo, as pessoas começaram imaginar, que isso não é legítimo. Como não vejo nada de imoral ou indecente no fato de se buscar a própria felicidade, pretendo continuar pensando e argumentando  por uma Terapia Ocupacional humanamente útil.
 Penso aqui com Hanna Arendt: "... o fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável..." Assim me aconchego a metáfora que  Drumond nosso filosofante poeta aponta-me: "se a formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história universal até nossos dias, é tão pouco cinco sentido... que sejam novos e comovidos".

Por Gonzaga Leal.
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Sobre Terapia Ocupacional, Subjetividade e História.

Poderia até tentar, através de um exércicio imaginário, dar conta do que me faz ter uma relação com a Terapia Ocupacional através das vertentes que se poderia chamar de subjetividade e história e de ver, nesse campo o que a Terapia Ocupacional poderia produzir ou mesmo explicar.
É uma questão que me inquieta, que acho interessante.
Posso dizer de antemão que tenho um pensamento HISTORICISTA, o que se poderia chamar de mais "caseiro". Some-se a isso uma sensibilidade particular minha. Aí não sei dizer se é a frágil resolutividade do meu Édipo, se é a minha história de classe, o meu nascimento no Nordeste do Brasil, mas é minha sensibilidade em relação à opressão e a discriminação. Sempre achei muito ruim encararem a diferença de maneira hieárquica, fazendo desta hierarquia intolerância e perseguição aos supostos inferiores. Isto é uma coisa que também não saberia dizer e não posso largar. Não é uma camisa de força, é como se fosse a minha própria pele. Quando estou funcionando fora disso, não consigo me sentir legítimo.
Para mim, é impossivel lidar com coisas que não têm relação com isso. Fico me sentindo retórico, tenho a impressão de estar em conversa de salão.
Quando penso nestas questões todas, o que resulta se revela em algo extremamente vital, que implica "dores" minhas e do outro. Sinceramente, sempre a minha aproximação é com tudo aquilo que trás e inscreve-se na dimensão da diferença.
Os autores aos quais me filio, são pessoas que ao meu ver são capazes de se demarcar, e ter um certo interesse pelo que é humano e não pelo que é uma extrapolação, uma imagem etérea do humano. Procurando aproveitar neles o que me interessa e desprezando o que não me agrada. Estou convencido do pensamento plural. Estou certo que até agora não se inventou melhor convivio social do que aquele trazido pela tradição democrática, quer dizer, aquele em que as ideias proliferam e são livremente discutidas.
É evidente que essa posição pragmática tem limite. No entanto é muito difícil me libertar dessa preocupação e pensar em questões um tanto mais abstratas.
Imagine, se todo mundo fosse como eu, que pobreza de ideia o mundo teria! Autores da linhagem platônica, kantiana, hegeliana, etc, etc, etc e muitos etc, não teriam existido. Eles são pessoas capazes de fazer o exercício da abstração sobre as limitações e as determinações da própria contingência para aceder aqilo que é necessário. Ora, pessoas como eu jamais poderiam pensar dessa maneira. Em contrapartida, se não houvesse esse esforço de abstração, não se faria muita coisa, o mundo seria visualizado através de um olho só.
Este é meu limite. Só respeitando o próprio limite e funcionando de acordo com o que se pensa é que se pode acrescentar uma pedra a mais na conversação da humanidade. Isto significa dilatar os horizontes dos possíveis e tentar inventar mundos ou alternativas de mundos viáveis, através do exercício imaginário para viabilização de ações.
isto é que faz grande parte do que considero condição humana.
Humberto Eco, no pós-escrito do Nome da Rosa diz que todo escritor tem seu interlocutor-cúmplice. Mas também posso pensar que os opositores são fundamentais.
E desta forma, quais seriam os meus cúmplices e os meus opositores?
Meus interlocutores cúmplices são todas aquelas pessoas que estão preocupadas em pensar o particular ou a diferença entre os particulares. Meus opositores, nessa conversação são os pensadores do universal. Estou sempre perguntando a eles como é que acham que podem passar por cima das sombras, da contingência histórica para pensar o sopro, o etéreo, a essência daquilo que seria verdadeiramente humano. Mas é evidente que para mim é fundamental que esses autores existam, pois são os polos da tensão que leva a pensar.
É claro que, na hora de trabalhar, prefiro estar com pessoas que tenham pontos parecidos com os meus, porque isso me enriquece e posso produzir mais ricamente no sentido de entender o deslocamento da Terapia Ocupacional se deslocando do campo único e exclusivo do conhecimento para o campo do que poderiamos denominar de uma Estilística da Existência. Enunciar isto é formular que não é a ideia de cura o que direciona a Terapia Ocupacional e o que orienta as condições de sua prática no mundo moderno. A sua finalidade será de constituir as condições de possibilidades para que o sujeito possa se coordenar nos registros do simbólico, do imaginário e sua tensão desejante na cotidianeidade do agir. Melhor dizendo: que o sujeito guarde uma chance de permanecer suficientemente louco e não morrer curado.


Por Gonzaga Leal.
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Sobre Arte, Criação e Caos.

A arte luta efetivamente com o caos, mas para fazer surgir nela uma vizão que o ilumina por um instante, uma sensação. Mesmo as casas... é do caos que saem as casas embriagadas. A arte capta um pedaço de caos numa moldura, para formar um caos composto que se torna sensível, ou do qual retira uma sensação caóide enquanto variedades.
O que é criação são variedades estéticas, que sempre agem sobre um plano capaz de recortar a variabilidade caótica.
O significado de caos ainda não é consensual. Há uma linha divisória entre o caos matemático e o caos poético - existencialista. O primeiro traduz-se numa geometria, em espaços de possibilidades sem equilíbrio nem previsibilidade, mas ainda assim definidos no interior de algum sistema determinado. Já o caos grego é a falta de sentido a partir do qual nem mesmo a desordem é possivel.


Por Gonzaga Leal.
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 Todo grupo pensa os seus fundamentos, pensa o que é verdadeiro em função de uma determinada tradição, de valores dos quais ele não pode escapar, quer dizer, em função dos seus mitos de origem. O que pode é, admitindo essa contingência, dizer aos outros:
   "Veja só o que penso e como penso em função daquilo que me rodeia, daquilo que tenho como herança cultural. O que é que você, que tem outra tradição acha disso? O que me propõe?"
   É através desse diálogo que se pode fazer proliferar as alternativas e modos de vida. E que implicitamente, se admite a diferença a partir de uma inscrição no campo da ética. Considerando as intensidades, já me preocupei mais com a discussão de natureza e cultura, sujeito e sociedade, Terapia Ocupacional e outros saberes.
   Acho que existe sempre o temor de perder aquilo que se pode chamar de especificidade. Como se ela fosse dada ou estabelecida. Como se houvesse lá no céu das ideias, a pedra de toque cuja lógica prevê aquilo que a Terapia Ocupacional tem que dar conta e o que pertence a outras disciplinas. Ou seja, a garimpagem purista das ideias. De maneira que, se a gente se equivocar, acaba conhecendo errada ou falsamente. O pressuposto é de que existe uma adequação prévia entre a coisa ou o conceito da coisa ou a essência da coisa, e a palavra.
   De tal maneira que, se começo misturar as narrativas, não vou poder conhecer objetivamente, não haverá correspondência entre a coisa e aquilo para o que ela aponta.
Por Gonzaga Leal.
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Segundo Cooper, a loucura não está "na" pessoa, e sim no sistema de relações do qual ela participa. Não se fica "louco" sozinho, porque nunca se pensa sozinho, exceto para postular que o mundo possui um centro (Bataille).
Ninguém escreve, pinta ou cria sozinho. Mas é preciso fazer de conta.



Por Gonzaga Leal.
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Na clínica: onde na maioria das vezes observamos a ordem, o simples, uma configuração. Encontramos o caos complexo.

Por Gonzaga Leal.
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Cada paciente tem o seu tempo de criação. É difícil saber quando começa a gravidez e quando se dá o parto. E este percurso é de infinita solidão e desamparo. Dele, tudo emerge de regiões muito profundas. Criando, o paciente concilia o disco cromático de seus sentimentos, que a exemplo de um artesão, procede na busca obsecada da forma.

Recordo-me neste instante de uma lenda chineza (citada por Ítalo Calvino) que conta que Tchuang - Tsen sabia desenhar muito bem. O rei pediu-lhe que desenhasse um siri. Tchuang exigiu um prazo de cinco anos, um casarão e dois serviçais. Cinco anos depois, o desenho ainda não estava começado. Tchuang pediu mais cinco anos. No final do décimo ano, Tchuang pegou seu pincel e, num jato, desenhou o siri mais perfeito que se pode ver.
Essa lenda ensina a força da maturação, da rapidez e da expontaneidade - Tchuang desenhou um siri num abrir e fechar de olhos - exigiu de Tchuang - Tsen anos e anos de aprendizado e observação da natureza que, como sabemos, é a fonte maior do conhecimento. Hoje somos regidos pela pressa, pelo imediato.

Por Gonzaga Leal.
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No processo Terapeutico Ocupacional, nenhum detalhe é supérfulo. Diante de um alto grau de crispação da consciência, muitas vezes só as mãos são capazes de produzir fantasia.

Por Gonzaga Leal.
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Não me entendo bem com a ideia de Setting Terapeutico Ocupacional. Prefiro pensar a questão de lugar, a partir de plataformas e corredores cênicos através dos quais uma dramaturgia é escrita e se inscreve. Assim, histórias acontecem e cenas se revelam imprimindo um ritual, determinados pela dimensão vocal, pela caligrafia do corpo e intercalados por zonas de silêncio. Com isso novas plataformas e corredores são reinventados metaforicamente. Um novo lugar é construido e novas cenas precipitadas. A narrativa acontece alí na instantaneidade do momento, dando lugar a materialização da vida, num plano profundo... menos político e mais metafísico.

Por Gonzaga Leal.
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Ser TERAPEUTA OCUPACIONAL de verdade é encarregar-se de desmanchar cercas e administrar esperanças.

Por Gonzaga Leal.
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Pensando bem, quando o GUATTARI se refere a paradgma estético, acredito que ele não está propondo nenhuma estetização no campo social, mas chama atenção para essa dimensão da criatividade que se arrisca, sem qualquer proteção, a um mergulho absoluto no caos. E, que se preocupa, ao mesmo tempo, com uma prática, uma praxis criativa. Tratar dos problemas, da Terapia Ocupacional, significa produzir a mesma diversidade de obras encontradas, por exemplo, numa exposição de arte, onde cada objeto é singular. A produção social e, claro, a produção científica e filosófica pode então escolher esse paradgma como o paradgma da criação.

Por Gonzaga Leal.
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NA VIDA DEVEMOS SER:

   LÍVIDOS...

   LÉVIDOS...

                       E

   LUMINOSOS.

EM TERAPIA OCUPACIONAL O VÁZIO NÃO DEVERÁ TER O SENTIDO DE FALTA, DE AUSÊNCIA, DEVERÁ SER COMPREENDIDO COM O SENTIDO DE POTÊNCIA.
                                                                                               
GONZAGA LEAL
                                                                                                                               DEZEMBRO DE 2011

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Andei matutando bastante sobre o que postar neste link em primeira mão.
Estou distante da clínica há um tempo e passei a me dedicar inteiramente ao meu trabalho como músico, e todas as implicações que envolve o ofício de ser artista. Ver site: www.gonzagaleal.com.br. Toda a minha vivência na clínica continua produzindo sons, movimentos e as mais diversas lembranças e provocações. Ressonâncias tantas.
Revisitando as minhas gavetas, encontrei apontamentos relativos a temas que desenvolvi em alguma palestra que não tenho a menor ideia aonde aconteceu e em que época. Asseguro que eles têm pelo menos 20 anos de idade. São rascunhos. Estão datados. Não sei se ultrapassados. A única diferença é como eles estavam configurados e como agora passarão a existir. É que, na sua versão original os tópicos estão manuscritos em um papel de caderno pautado, inscritos numa outra dimensão de espaço e tempo, e no momento eles ganham o formato que ora é apresentado neste blog. Coloquialmente pensados e modestamente organizados. Sem nenhuma modificação ou edição.
Revisitar temas e apontamentos é o que pretendo de agora em diante. Isso significa me reconectar há um tempo mítico através do qual também me constituo.
Desengavetá-los e reinserí-los, numa outra dimensão espaço-temporal em verdade, é um dos propósitos que objetivo com este blog. É possível, quem sabe, esteja  emprestando-lhes um novo sentido. Será então?

QUESTÕES PSICODINÃMICAS NA RELAÇÃO CUIDADOR - CUIDADO.

Luiz Gonzaga Pereira Leal

* "Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".
   "Ah, a flor do amor tem muitos nomes". (Guimarães Rosa - in Grande Sertão Veredas).
1- Relação Cuidador - Cuidado: vivência de papéis e exercício de função
2- Binômio Doença - Doente.
3- Adoecer: uma experiência vivida como ameaçadora a integridade do sujeito
4- Estar Doente: é estar preso a uma teia de afetos ligado:
  • desamparo
  • expectativas em relação a cura
  • fantasias
  • morte 
5- Estar Doente: a falta de sáude é sentida de maneira pessoal - Estruturação do Ego?
6- Pessoa do Cuidador: investida de  ideias fantasiosas.
  • mítica
  • idealizada
  • supervalorizada
7- Cuidador: aquele que sabe; que manda, que tem poder?
    Cuidado: aquele que necessita; não sabe; dirigido; desamparado
8- Relação Cuidador - Cuidado: um manejo para desenvolver uma relação dialética com aquele que sofre.

Aquele que adoece: invadido por sentimentos de:
  • desamparo
  • medo
  • confusão
  • culpa
  • vergonha
  • sentimento de humilhação por ter fraquejado
  • atingido na ferida narcísica de reconhecer que é um mortal
  • contato com perdas: de pessoas; coisas, afetos; valores -  as quais reage com o sentimento de abandono e desesperança.
9- Fenômenos Transferênciais: No cotidiano clínico o terapeuta se defronta com pacientes que vão desde um polo de dependência até um outro extremo e que apresentam uma hostilidade; negativismo em colaborar; em reconhecer melhoras.
10- Fenômenos Contra - Transferênciais: Resposta do cuidador as angústias nele depositadas pelo paciente.
*ferida narcísica do terapeuta?...
11- Personalidade de quem cuida:
      11.1- Depressivo: (pessimismo - negativismo - autodesvalia).
      11.2- Maníaco: (otimismo exagerado - sem base real).
      11.3- Paranóide: (atitude... - desconfiada).
      11.4- Obsessivo: (rigidez - desgastante detalhismo).
      11.5- Fóbico: (evitação de tudo que possa despertar alguma densidade).
      11.6- Esquizóide: (jeito esquisito - dificuldade de relação pessoal).
      11.7- Psicopata: (o engodo é a tônica).
      11.8- Narcisista: (busca constante do aplauso).
12- Atributos do Cuidador:
      12.1- Esquema referencial: conjunto de afetos, experiências, com os quais ele pensa, age e se comunica.
      12.2- Ações Psicoterapeuticas
      12.3- Atento ao Binômio: psique e soma
      12.4- Capacidade de Empatia: sintonia com a dor sem diluir-se nela.
     12.5- Capacidade de ser Continente: as angústias e fantasias do paciente. Continente as suas próprias angústias, dúvidas e do não saber.
Na falta dessa capacidade:
  • excessiva medicação
  • encaminhamentos desnecessários
  • pedidos de exames
  • devoção exagerada 
  • fuga do doente
  • constantes mudanças no plano terapeutico
12.6- Capacidade para se deprimir - reconhecer: virtudes, defeitos, alcances, limites.
        
- Traços caracteriológicos:
  • Paranóide: responsabilizar os outros
  • Narcisistas: regidos pela lógica de sempre acertarem. A verdade sempre lhes pertencem. não aguentam constestações e se dão mal com pacientes que não melhoram.
A elaboração depressiva abre caminhos para a discriminação - individuação - autonomia - reflexão - criatividade.
12.7- Capacidade de Separação
12.8- Capacidade de Comunicação: via os vários códigos comunicacionais.
        
         Falhas decorrentes da comunicação:
  • não saber escutar - ouvir
  • não saber ver - olhar
  • reger-se por pré-conceitos
  • incorrer no vício daquilo que Balint chama de Função Apostólica - catequizar os pacientes com julgamentos morais e padrões de comportamento.
  • envolvimento contra- transferencial - que implique na perda de papéis.
  • dificuldade em lidar com a verdade.

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